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	<title>ORDEP SERRA</title>
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	<description>Ordep José Trindade Serra - site oficial</description>
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		<title>ORDEP SERRA</title>
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		<title>MANIFESTO CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E O RACISMO, EM DEFESA DO CANDOMBLÉ E DOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS EM GERAL</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 19:23:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>martinelli</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Os ritos afro-brasileiros formam um espetro rico e matizado. Não obstante a variedade, é muito o que eles têm em comum, por causa de ligações de origem e também por conta de aproximações feitas neste país. A diáspora negra nos trouxe as riquezas religiosas de diferentes povos da África, de que somos herdeiros. Não há dúvida de que assim a cultura nacional se enriqueceu muito. Hoje o próprio Estado brasileiro reconhece o valor  desse legado: cinco terreiros de candomblé baianos foram tombados como patrimônio histórico do país; quase uma dezena tem o título excepcional de patrimônio da Bahia. Outros, muitos,  mantêm convênios com órgãos de governo (da União, do estado e do município), para desenvolver importantes trabalhos de promoção social que resultam na melhoria da qualidade de vida do povo. As associações que representam terreiros no plano civil são geralmente reconhecidas como de utilidade pública. Uma Ialorixá e um Babalaô receberam títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia. Delegações de sacerdotes do candomblé foram recebidas com todas as honras no Congresso Nacional e na Corte Suprema. Homenagens a essas autoridades religosas têm acontecido em diversas Assembléias. Para dar um só exemplo, um terreiro baiano já foi visitado por um Presidente da República, por Governadores e parlamentares, por um escritor agraciado com o prêmio Nobel e por autoridades religiosas cristãs, a saber, um representante do Vaticano e um grupo de pastores evangélicos noruegueses. É normal que pessoas cultas, civilizadas, educadas, demonstrem respeito e consideração pelos cultos afro-brasileiros. Só a ignorância, o racismo e o fanatismo explicam a atitude de quem os desrespeita e ataca com gratuita hostilidade.  </em></p>
<p><em>No candomblé (a forma de culto afro-brasileiro que prevalece na Bahia), muitos negros têm encontrado um caminho de afirmação, um fundamento de auto-estima que os ajuda a superar a discriminação racial. A idéia da ascendência é retrabalhada nesse contexto de uma forma enriquecedora: quem se inicia em um terreiro torna-se, em termos espirituais, descendente dos seus fundadores. Por isso, os iniciados passam a considerar-se angolas, congos, jejes, ou nagôs, por exemplo. Assumem e vivenciam (seja qual for sua procedência) identidades afro-brasileiras. As origens negras são valorizadas, veneradas. Mas não existe barreira étnica que proíba a quem quer que seja esta identificação. Nos terreiros também se encontram brasileiros e até estrangeiros brancos, convivendo harmonicamente com pessoas negras e negro-mestiças. No culto do candomblé não se admite preconceito, não se condena o próximo, não se faz pouco das crenças alheias, não se discrimina. Por isso mesmo o candomblé é respeitado e tido em alta conta por pessoas das mais diversas origens, de diferentes crenças.  </em></p>
<p><em>É impossível pensar o Brasil de forma positiva sem uma valorização das suas origens negras e caboclas. Somos um país latino, sim, mas negro e caboclo também. Não há dúvida de que esquecer nossa ligação com o continente negro equivale a esquecer, ignorar o Brasil. </em></p>
<p><em>Aqueles que condenam as religiões de matriz africana e lhes movem uma guerra sem quartel, à base de calúnias e agressões de todo o tipo, apenas difundem um triste preconceito. Há mesmo igrejas em busca de crescer parasitando os ritos que assim perseguem. Mas nisso destoam dos verdadeiros evangélicos.  </em></p>
<p><em>Por muito tempo, neste país, alimentamos o furor de um racismo hipócrita fazendo de conta que isso não existia por aqui, fingindo que não temos “problema racial”. Hoje, poucos apregoam a “democracia racial brasileira”. Mas agora nos defrontamos com um triste casamento de racismo com intolerância religiosa. Ora, convém lembrar que racismo é crime e intolerância religiosa também. Representam um desacato a nossas leis maiores, a começar pela própria Constituição Brasileira.  </em></p>
<p><em>            Por ironia, os atingidos por esses crimes são praticantes de ritos que muito contribuíram para um autêntico avanço democrático no Brasil, difundindo aqui um generoso espírito de tolerância. Como religiões não dogmáticas, os cultos afro-brasileiros não reivindicam qualquer monopólio da verdade. Consagraram, assim, uma mentalidade aberta, que admite e acolhe a diferença. Isto é uma autêntica conquista civilizatória, que hoje se vê ameaçada pela agressão do fanatismo.  </em></p>
<p><em>O culto dos orixás enriqueceu o Brasil com a beleza de seus ritos e símbolos, inspirando inúmeros artistas. (Lembremos Carybé, Mario Cravo, Agnaldo Santos, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Tati Moreno, Capinan, Roberto Mendes, Bel Borba&#8230; A lista seria interminável). Seus adversários lhe opõem o vandalismo, a injúria e a calúnia. Enquanto a ética dos terreiros consagra a poesia do corpo, a dignidade das mulheres, os encantos do amor, a alegria das festas, o esplendor da natureza, seus detratores cultivam tristes preconceitos, semeiam racismo e sexismo.                </em><strong><em></em></strong></p>
<p><em>É momento de cobrar com vigor o resgate da imensa dívida do Brasil para com os afro-descendentes. Neste contexto, torna-se imperativo reconhecer que é imoral e ilegal  o ataque aos adeptos dos cultos afro-brasileiros e a sua religião. Cidadãos dignos, seja qual for sua crença, não podem admitir que a liberdade religiosa seja violada, que  os adeptos do candomblé sejam desrespeitados, ofendidos, injuriados, maltratados, perseguidos. </em></p>
<p><em>Os terreiros não são apenas templos religiosos aonde uma parte significativa da população vai em busca de remédio para suas aflições. São ainda agências culturais, centros de educação. Têm sido um espaço onde pessoas pobres podem desfrutar de um ensinamento voltado para sua valorização e efetiva integração comunitária.  </em></p>
<p><em>Não são apenas mitos, ritos, orações, uma complexa liturgia que se aprende nos terreiros; não só as fórmulas de um código religioso, os padrões de uma música e de uma dança magníficas, os segredos místicos e terapêuticos de uma notável etnobotânica, os procedimentos de uma culinária sagrada, o jogo dos símbolos que inscrevem valores no corpo através de sutis paramentos; não só uma estética vivificadora, embebida de amor pela riqueza da criação; nem só um cálido apreço pela vida. Nos terreiros, um homem negro, uma mulher negra, reencontra uma história que lhe foi tirada, reconquista seus ancestrais, reinventa-se o tempo perdido, vive tradições que o referenciam; qualquer homem, qualquer mulher, assim acolhido no seio dos antepassados africanos (e caboclos), aprende uma fraternidade que ultrapassa todos os limites de cor e classe; aprende a amar sua origem e nela, em seu horizonte, sentir o divino. Ganha respeito por si mesmo e pelos outros.</em></p>
<p><em>O ataque aos cultos afro-brasileiros compromete estas conquistas. Reativa o racismo. Traz consigo uma ameaça de desagregação, de incremento da violência. Mas não atinge apenas suas vítimas diretas. O progresso da intolerância é um surto de barbárie que pode destruir um país.</em></p>
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		<title>Seminário Planejamento Urbano e Gestão Ambiental</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Sep 2011 14:34:52 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O Seminário Planejamento Urbano e Gestão Ambiental está sendo promovido pelo Movimento Vozes de Salvador e pela Rede de Profissionais Solidários.Terá lugar nos próximos dias 28 e 29 de setembro, na Faculdade de Arquitetura da UFBA (auditório Mastaba), com sessões pela manhã e pela tarde. Pretende discutir os diferentes aspectos da grave crise hoje vivida por Salvador (com destaque para a violência feita a seu patrimônio ambiental), assim como elaborar e encaminhar propostas de enfrentamento da mesma. Em novembro próximo acontecerá uma nova sessão do seminário, para a qual o Movimento convidará líderes políticos considerados “prefeituráveis”,   a fim de  colocar-lhes questões pertinentes à dita crise e apresentar-lhe os resultados das discussões travadas neste primeiro momento.</p>
<p>Para maiores informações, ver programa (clique na imagem para ampliar!):</p>
<p style="text-align:center;"><a href="http://ordepserra.files.wordpress.com/2011/09/post.jpg" target="_blank"><img class="size-large wp-image-817 aligncenter" title="post" src="http://ordepserra.files.wordpress.com/2011/09/post.jpg?w=285&#038;h=368" alt="" width="285" height="368" /></a></p>
<p>Divulgue e compareça!</p>
<br />Filed under: <a href='http://ordepserra.wordpress.com/category/destaque/'>DESTAQUE</a> Tagged: <a href='http://ordepserra.wordpress.com/tag/destaque/'>DESTAQUE</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ordepserra.wordpress.com/816/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ordepserra.wordpress.com/816/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ordepserra.wordpress.com&amp;blog=4323093&amp;post=816&amp;subd=ordepserra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Governo e propaganda</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jul 2011 17:41:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>martinelli</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>BREVE NOTA SOBRE GOVERNO E PROPAGANDA NO BRASIL</strong></p>
<p>Em todas as instâncias de governo — nos municípios, nos estados, na União — pratica-se hoje, no Brasil, uma fraude que de tão rotineira e sistemática já se “naturalizou”: como não é questionada nem denunciada, já se percebe como coisa “normal”, embora configure um abuso, uma aberração tanto ética quanto política.</p>
<p>Falo da publicidade governamental. E não me refiro aos gastos excessivos nesta área. Estes são criticados, embora menos do que merecem; são censurados com justiça, seja pelo que representa seu montante, em comparação com aplicações de fato necessárias do dinheiro público, seja pelo caminho fácil que a rubrica oferece para o encobrimento de despesas inconfessáveis. Quero aqui chamar a atenção para outra coisa: para um desvio constante, radical e sistemático, que todavia não se adverte.</p>
<p>Refiro-me ao teor da publicidade de nossos governos: a seu conteúdo equívoco, em que se verificam de modo simultâneo excesso e falta, ambos imorais.</p>
<p>Começo pela falta. Poucas vezes vemos na publicidade governamental campanhas destinadas à educação para a saúde, ou para o trânsito, por exemplo. Raramente ela visa o aconselhamento no que toca a problemas relativos à segurança ou ao bem estar da coletividade. Volta-se menos ainda para o campo da cidadania: <strong>não</strong> cuida de informar os cidadãos sobre matérias de seu real interesse; nunca, ou quase nunca, trata dos direitos do consumidor, ou ensina como acessar os serviços que devem ser disponibilizados pelo estado para a promoção da igualdade e a melhoria da qualidade de vida do povo. Tampouco estimula a participação democrática na gestão, em qualquer nível; na verdade, <strong>evita</strong> este tema, assim como evita o esclarecimento sobre mecanismos disponíveis para o controle social da governança. É inexistente ou insignificante a comunicação midiática dos administradores da coisa pública em domínios cruciais como a prevenção de calamidades, a pedagogia do consumo consciente, a preservação ambiental etc.</p>
<p>Ora, dá-se que esses tópicos deveriam ser o objeto precípuo da publicidade paga pelo governo com dinheiro público.</p>
<p>Essa falta é vergonhosa e revela-se ainda mais obscena quando se considera o excesso que a acompanha. Explico-me: o excesso reside, neste caso, no próprio desvio e na brutalidade do seu vulto medonho. Se sou responsável por um grupo social, tudo quanto deixo de investir na satisfação de seus reais interesses e aplico em meu próprio benefício constitui desvio; e o desvio de qualquer tipo já constitui excesso, assim como é excessivo por natureza todo desperdício. Ora, o desperdício vem a ser tanto mais grave quanto maior for a carência correspondente. Neste caso — nessa relação dialética — a falta é um dos componentes do excesso.</p>
<p>Mas não é o único.</p>
<p>Suponhamos que a aplicação desviante se eleve a um nível em que se torne significativo <strong>fator</strong> de carência; neste caso, o excesso recebe uma gradação correlata. Exemplificando: se uma pessoa é responsável por um doente e tem recursos disponíveis para fornecer-lhe remédio, mas desvia esses recursos para outro fim, a avaliação do mal que lhe faz tem de levar em conta a maior ou menor gravidade do estado patológico do enfermo. Quanto mais a falta do remédio se fizer decisiva, em termos da reversibilidade do quadro, mais grave há de ser o delito do responsável por semelhante privação. No limite, quando torna impossível a cura, um procedimento como esse torna-se gravíssimo: equivale, na prática, ao homicídio.</p>
<p>Não é tudo. Coisa pior ocorre quando a aplicação desviante tem reflexos negativos adicionais: quando, em função de seu vetor, ou da natureza dos alvos para os quais se desloca, o desvio produz agravos novos, além da privação correlata. Neste caso, a aplicação indevida não é só desviante: é também <strong>perversa</strong>. Se alguém dá a uma pessoa que carece de remédio um substitutivo não apenas insuficiente, ou inócuo, mas prejudicial à sua saúde, age perversamente. E a perversidade também pode ser maior ou menor, conforme o prejuízo causado.</p>
<p>Isso posto, volto ao núcleo da questão e digo logo o que me parece: a publicidade governamental em nosso país é <strong>fraudulenta</strong> e também <strong>perversa</strong>. Na prática dessa fraude e dessa perversidade têm incidido todos os governos, de todos os partidos que chegam ao poder.</p>
<p>O desvio é claro: em vez de voltar-se para assuntos de real interesse público, essa publicidade cujo ônus incide sobre os cidadãos brasileiros em geral assume como objetivo a celebração dos governos; ou melhor, dos governantes. Os nomes dos gestores já não são declinados, pois uma lei o proíbe, mas um artifício simples dribla facilmente o conato da norma: os publicitários contratados criam logo um slogan que associam com a gestão — e, implicitamente, com o gestor. O ente <em>governo</em> que assim se cria deixa-se ler com facilidade como uma hipóstase do mandatário e/ou de seu partido, de seu grupo político. O <strong>Governo</strong> então figura como dispensador de benefícios ao povo, que o festeja. Na propaganda, a grata celebração desejada se antecipa, a um tempo induzindo e realizando seu desiderato, com singular eficácia simbólica. A rigor, é o Governo que agradece ao Governo — com dispêndio de dinheiro público —, por ter cumprido alguma obrigação elementar, assim transformada em um grande favor — a ser retribuído com votos, como se deixa implícito. Cultiva-se deste modo o evergetismo, que vem a ser, como se sabe, uma estratégia cesarista. Se no passado (na Grécia e em Roma), o <em>evergeta</em> (do grego <em>euergétes</em>, “benfeitor”) era diretamente personalizado, maneiras mais sutis se encontram hoje para obter o mesmo efeito. A perversidade do procedimento está em que assim se induz o cidadão a pensar-se como cliente favorecido, contemplado pela benevolência do poderoso de plantão. O que é seu direito se transforma em concessão magnânima. Subentende-se que a escolha do homem bom ou do partido justo é a única coisa que o cidadão deve fazer. Posto isso, o Governo proverá.</p>
<p>Há sempre entusiasmo nas imagens e vozes beatas que ecoam em tais peças publicitárias. Pessoas deslumbradas (homens, mulheres e crianças) mostram seu encantamento, num ambiente de felicidade e progresso, em cenas miríficas. E a litania conclusiva se entoa ao fundo: <em>O Governo faz, o Governo dá, o Governo trabalha para você, realiza por você</em>. <em>Fique tranqüilo. Está tudo bem. Olhe como essa gente aplaude! Veja quanta coisa boa já lhe outorgamos! </em>Ora, é evidente o objetivo dessa classe de propaganda: visa a conquista de votos que garantam a permanência dos mandatários e/ou do(s) partido(s) vitorioso(s) no poder. <strong>É</strong> <strong>propaganda</strong> <strong>eleitoral</strong>, com desvio de dinheiro público para fins particulares, isto é, para a garantia do interesse máximo dos mandantes: continuar mandando. Nisso eles gastam recursos que deveriam ser aplicados, entre outras coisas, em campanhas educativas, na divulgação de informações de fato necessárias e úteis à coletividade.</p>
<p>Fraude, em suma.</p>
<p>E fraude perversa.</p>
<p>Um agravante muito sério: essa publicidade governamental é, quase sempre, propaganda enganosa: pequenas obras e realizações duvidosas tomam o vulto de façanhas titânicas. Outras que não chegaram a completar-se, ou não passam da fantasia, ganham proporções colossais. Mas quem controla isso? Quem fiscaliza esse fluxo caudaloso de mentiras? Ninguém. Os órgãos de defesa do consumidor não atuam nessa faixa.</p>
<p>Outro aspecto deletério da publicidade governamental vem a ser o seu teor imbecilizante. Ela deseduca e estupidifica, de maneira requintada. Por vezes, parece que é seu propósito, fazer de idiotas todos os cidadãos.</p>
<p>Oxalá não consiga.</p>
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		<title>Reflexões</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Jun 2011 15:04:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>martinelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[MínimaS VINTE E DOIS FRAGMENTOS QUASE METAFÍSICOS “Metafísica” é um nome dado por engano (dos estudiosos de Aristóteles) a um tipo muito importante, curioso e produtivo de fantasia de que os pensadores e as crianças não conseguem nunca livrar-se, mesmo quando querem eliminá-la. Poesia inconfessa, talvez. Filha da mitologia que devorou, costuma cegar quem a&#160;&#8230; <a href="http://ordepserra.wordpress.com/2011/06/26/reflexoes/">Leia mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ordepserra.wordpress.com&amp;blog=4323093&amp;post=812&amp;subd=ordepserra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>MínimaS</strong></p>
<p><strong>VINTE E DOIS FRAGMENTOS QUASE METAFÍSICOS</strong></p>
<p>“Metafísica” é um nome dado por engano (dos estudiosos de Aristóteles) a um tipo muito importante, curioso e produtivo de fantasia de que os pensadores e as crianças não conseguem nunca livrar-se, mesmo quando querem eliminá-la. Poesia inconfessa, talvez. Filha da mitologia que devorou, costuma cegar quem a despreza.</p>
<p>Precisa-se de um centro até para ser excêntrico.</p>
<p>Quem não quer o poder, quer a impotência. Quem só quer o poder e o deseja apaixonadamente apodrece ao tocá-lo.</p>
<p>Se o ouvido não é franco, a boca também não é.</p>
<p>Chama-se de “mistério” o que só o silêncio sabe dizer.</p>
<p>Quem não tem inimigos não presta. Quem só tem inimigos, tampouco.</p>
<p><strong>Mitologia</strong>: Deus morreu e criou o mundo com o corpo de que se separou. Descarnado, perturba os homens com sua poderosa ausência. Tentando imitá-lo, muitos insistem em separar alma de corpo; mas esta espécie de morte nada produz em quem não é divino. Morto, Deus não acaba: o fértil Fantasma vive de sua imaginação, fecundando aqueles que sua saudade anima. Assim sua morte se repete infinitamente. E multiplica sua vida também pelo infinito.</p>
<p>O sonho desperta. A imagem vê.</p>
<p>Ao mestre agradeço não pelo que me deu, mas pelo que me tirou.</p>
<p>A estupidez tem muitos admiradores.</p>
<p>Ao mestre agradeço por não ser discípulo.</p>
<p>Se o mar a cobrisse inteira e por todo o tempo, esta faixa de areia não seria praia; se ele nunca a tocasse, tampouco o seria. Praia é o que o mar cobre e descobre. Assim somos nós: uma praia do ser.</p>
<p>Por vezes, novos mundos tocam e penetram os horizontes do nosso. Pode ser que os provoquemos, sem o saber; pode ser que apenas cumpram uma órbita ignorada. Mas de vez em quando, ocorre esse inesperado advento: as palavras ganham novos sentidos, as coisas deixam de ser objetos, os gestos triviais se transfiguram e tomam a feição de uma dança desconhecida. Celebramos mistérios que nos transcendem, verdades e valores que ignoramos de fato.</p>
<p>A verdadeira bondade é a mais alta forma de inteligência.</p>
<p>Desejo: a carência elevada ao sonho.</p>
<p>Não há coisa mais fascinante que a religião. Nem mais horrível que a religião.</p>
<p>A má fé não admite dúvidas.</p>
<p>Crentes que não suportam a dúvida, sendo, por isso mesmo, incapazes também de fé, combatem covardemente sua angústia empenhando-se em converter os outros.</p>
<p>Deus não mente, mas engana.</p>
<p>As idéias também degeneram.</p>
<p>A idéia de universo é obstinada e cega, exige uma crença absoluta, ou uma espécie fascinante de embriaguez. Embora com pouco espaço na ciência, na poesia vive o multiverso.</p>
<p>É curioso: obcecados pelo universal, todos nos tornamos especialistas.</p>
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		<title>Nota breve sobre leitura e desletramento</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Jun 2011 14:48:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>martinelli</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[NOTA BREVE SOBRE LEITURA E DESLETRAMENTO No ano passado fui a o geriatra e ele me pediu vários exames. Quando os levei, ele estudou um por um, com muita atenção, e concluiu: “Fisicamente, o senhor está bem. Mas na sua idade, é preciso tomar cuidado com a memória, manter a mente lúcida. Para isso, deve&#160;&#8230; <a href="http://ordepserra.wordpress.com/2011/06/19/nota-breve-sobre-leitura-e-desletramento/">Leia mais</a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ordepserra.wordpress.com&amp;blog=4323093&amp;post=810&amp;subd=ordepserra&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>NOTA BREVE SOBRE LEITURA E DESLETRAMENTO</p>
<p>No ano passado fui a o geriatra e ele me pediu vários exames. Quando os levei, ele estudou um por um, com muita atenção, e concluiu: “Fisicamente, o senhor está bem. Mas na sua idade, é preciso tomar cuidado com a memória, manter a mente lúcida. Para isso, deve ter atividade intelectual. Leia uns livros, aprenda uma língua estrangeira, exercite sua inteligência”. Em seguida, escreveu essas recomendações numa receita que ainda guardo. Me diverti muito com esta consulta. Tenho 68 anos, sou professor universitário, pesquisador, participo de equipes e sociedades científicas, oriento mestrandos, doutorandos e até pós-graduados. Na verdade, vivo a estudar. Sou tradutor e escritor; leio vorazmente, em oito línguas; com franqueza não me lembro de um dia passado sem leitura alguma. Entendo, porém, a preocupação de meu médico: ela me parece sintomática. E o que ela evidencia vem a ser um dado assustador. Sua clientela é de classe média, com uma significativa maioria de aposentados. Aparentemente, a preocupação do meu geriatra indica que na classe média baiana (talvez na brasileira) está a tornar-se comum o “desletramento” progressivo — nome que acabo de inventar para o abandono da leitura e de atividades intelectuais exigentes. Talvez tenha a ver com isso a influência apassivadora da TV. Suspeito que muito tempo de exposição aos programas da TV brasileira, em particular, podem produzir uma espécie de castração do pensamento, uma severa inibição da criatividade e do espírito crítico; pode induzir a um tipo de preguiça mental que torna mecânica a recepção de informações, imagens e ideias prontas. Quem sofre disso, imagino, acaba por incapacitar-se para a leitura. Por desgraça, o efeito negativo não se verifica somente entre os aposentados. Tenho encontrado muitos jovens, até na Universidade, que lêem pouco e mal, de maneira muito passiva. Não culpo a TV somente&#8230; Isso dá testemunho da calamidade que se verifica no sistema educacional brasileiro. Ele está mesmo abaixo da crítica. Basta pensar no número absurdo de analfabetos funcionais em nosso país: 29,5 milhões de pessoas, pouco mais de 20% da população. Ora, este cômputo é ainda muito superficial: enquanto em países desenvolvidos são classificados assim os cidadãos carentes das habilidades de leitura, escrita, cálculo e raciocínio científico transmitidas no chamado ensino fundamental (com duração de oito anos), no Brasil contamos apenas as que se podem adquirir com três anos de escolaridade. Evidentemente, ter cumprido o tempo de escolarização em apreço não garante de modo algum que uma pessoa escape da triste categoria dos analfabetos funcionais: temos por aqui muitos que se demoraram muito mais tempo na escola. Isso acontece sobretudo nas classes de renda mais baixa, geralmente submetidos a um ensino público de péssima qualidade. Entre eles se acham os infelizes aprovados por decreto e as vítimas de outras formas de avaliação leniente. Mas estou a ver que o problema se verifica também em outros meios. Folheando uma periódico que pouco leio (Revista Veja, de 08 de junho de 2011, seção chamada Panorama, p. 66), encontrei esta declaração de um jovem, filho do megaempresário Eike Batista: “Nunca li um livro inteiro. Na época da escola, copiava os resumos da internet para fazer as provas.” Imagino que o rapaz frequentou um colégio classificado como muito bom, pois pode pagar. Mas aqui já me vem uma dúvida. Será mesmo um bom colégio aquele no qual um estudante se forma apelando para o recurso de que ele se valeu, sem que os professores o percebam? Já dei aulas ( por pouco tempo) no ensino médio. Era professor de português e costumava cobrar de meus alunos a leitura de pelo menos um bom livro no semestre. Era muito fácil verificar quem me apresentava um comentário feito por outro da obra indicada, sem a ter lido realmente: bastava-me para isso uma pequena conversa, no momento da entrega do trabalho. Com dois ou três minutos de diálogo, descobria e eu tornava evidente a farsa. Esses alunos “sabidos” logo descobriam que não era fácil enganar-me — e paravam de enganar-se. Quanto ao jovem bilionário, eu o lamento: é um pobre coitado. Uma pessoa que na sua idade nunca leu um livro inteiro é, para mim, um analfabeto funcional. A incapacidade que candidamente revelou sem dúvida não lhe impede o sucesso em muitas atividades. Um amigo com quem comentei o assunto me informa de que esse moço já é um empresário, seguindo a trilha do pai. Tem dinheiro, certamente se mostra hábil na manipulação da riqueza, nos desempenhos que asseguram a pessoas de sua casta o uso do poder, a multiplicação da fortuna e seu desfrute, a mágica da concentração de renda em níveis escandalosos num país com tantos miseráveis, as técnicas e manhas do <em>Jet set</em>. Certamente sabe buscar e usar informação pertinente a seus negócios; seu grau de letramento parece alto, pois tem o conhecimento que lhe permite conectar-se à rede da internet e aí fazer colheitas de informação. Mas que sucede com seu espírito crítico? Com admirável candura, ele declara ter praticado sistematicamente uma fraude em sua vida escolar ; e nem mesmo se dá conta de que ele foi a grande vítima desse logro. Conheço pessoas que não conseguem ler um livro porque não tiveram oportunidade de educar-se e não conseguem ter acesso fácil a publicações; pessoas que sofrem por isso, sentem e lamentam sua limitação. O caso do jovem bilionário me parece muito pior. Pelo jeito, ele não consegue ter apetite intelectual suficiente, nem consciência dos valores que despreza. Triunfará, sem dúvida, na plutocracia brasileira; mas espero que não venha a tornar-se Ministro da Educação.</p>
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