Nota breve sobre leitura e desletramento

NOTA BREVE SOBRE LEITURA E DESLETRAMENTO

No ano passado fui a o geriatra e ele me pediu vários exames. Quando os levei, ele estudou um por um, com muita atenção, e concluiu: “Fisicamente, o senhor está bem. Mas na sua idade, é preciso tomar cuidado com a memória, manter a mente lúcida. Para isso, deve ter atividade intelectual. Leia uns livros, aprenda uma língua estrangeira, exercite sua inteligência”. Em seguida, escreveu essas recomendações numa receita que ainda guardo. Me diverti muito com esta consulta. Tenho 68 anos, sou professor universitário, pesquisador, participo de equipes e sociedades científicas, oriento mestrandos, doutorandos e até pós-graduados. Na verdade, vivo a estudar. Sou tradutor e escritor; leio vorazmente, em oito línguas; com franqueza não me lembro de um dia passado sem leitura alguma. Entendo, porém, a preocupação de meu médico: ela me parece sintomática. E o que ela evidencia vem a ser um dado assustador. Sua clientela é de classe média, com uma significativa maioria de aposentados. Aparentemente, a preocupação do meu geriatra indica que na classe média baiana (talvez na brasileira) está a tornar-se comum o “desletramento” progressivo — nome que acabo de inventar para o abandono da leitura e de atividades intelectuais exigentes. Talvez tenha a ver com isso a influência apassivadora da TV. Suspeito que muito tempo de exposição aos programas da TV brasileira, em particular, podem produzir uma espécie de castração do pensamento, uma severa inibição da criatividade e do espírito crítico; pode induzir a um tipo de preguiça mental que torna mecânica a recepção de informações, imagens e ideias prontas. Quem sofre disso, imagino, acaba por incapacitar-se para a leitura. Por desgraça, o efeito negativo não se verifica somente entre os aposentados. Tenho encontrado muitos jovens, até na Universidade, que lêem pouco e mal, de maneira muito passiva. Não culpo a TV somente… Isso dá testemunho da calamidade que se verifica no sistema educacional brasileiro. Ele está mesmo abaixo da crítica. Basta pensar no número absurdo de analfabetos funcionais em nosso país: 29,5 milhões de pessoas, pouco mais de 20% da população. Ora, este cômputo é ainda muito superficial: enquanto em países desenvolvidos são classificados assim os cidadãos carentes das habilidades de leitura, escrita, cálculo e raciocínio científico transmitidas no chamado ensino fundamental (com duração de oito anos), no Brasil contamos apenas as que se podem adquirir com três anos de escolaridade. Evidentemente, ter cumprido o tempo de escolarização em apreço não garante de modo algum que uma pessoa escape da triste categoria dos analfabetos funcionais: temos por aqui muitos que se demoraram muito mais tempo na escola. Isso acontece sobretudo nas classes de renda mais baixa, geralmente submetidos a um ensino público de péssima qualidade. Entre eles se acham os infelizes aprovados por decreto e as vítimas de outras formas de avaliação leniente. Mas estou a ver que o problema se verifica também em outros meios. Folheando uma periódico que pouco leio (Revista Veja, de 08 de junho de 2011, seção chamada Panorama, p. 66), encontrei esta declaração de um jovem, filho do megaempresário Eike Batista: “Nunca li um livro inteiro. Na época da escola, copiava os resumos da internet para fazer as provas.” Imagino que o rapaz frequentou um colégio classificado como muito bom, pois pode pagar. Mas aqui já me vem uma dúvida. Será mesmo um bom colégio aquele no qual um estudante se forma apelando para o recurso de que ele se valeu, sem que os professores o percebam? Já dei aulas ( por pouco tempo) no ensino médio. Era professor de português e costumava cobrar de meus alunos a leitura de pelo menos um bom livro no semestre. Era muito fácil verificar quem me apresentava um comentário feito por outro da obra indicada, sem a ter lido realmente: bastava-me para isso uma pequena conversa, no momento da entrega do trabalho. Com dois ou três minutos de diálogo, descobria e eu tornava evidente a farsa. Esses alunos “sabidos” logo descobriam que não era fácil enganar-me — e paravam de enganar-se. Quanto ao jovem bilionário, eu o lamento: é um pobre coitado. Uma pessoa que na sua idade nunca leu um livro inteiro é, para mim, um analfabeto funcional. A incapacidade que candidamente revelou sem dúvida não lhe impede o sucesso em muitas atividades. Um amigo com quem comentei o assunto me informa de que esse moço já é um empresário, seguindo a trilha do pai. Tem dinheiro, certamente se mostra hábil na manipulação da riqueza, nos desempenhos que asseguram a pessoas de sua casta o uso do poder, a multiplicação da fortuna e seu desfrute, a mágica da concentração de renda em níveis escandalosos num país com tantos miseráveis, as técnicas e manhas do Jet set. Certamente sabe buscar e usar informação pertinente a seus negócios; seu grau de letramento parece alto, pois tem o conhecimento que lhe permite conectar-se à rede da internet e aí fazer colheitas de informação. Mas que sucede com seu espírito crítico? Com admirável candura, ele declara ter praticado sistematicamente uma fraude em sua vida escolar ; e nem mesmo se dá conta de que ele foi a grande vítima desse logro. Conheço pessoas que não conseguem ler um livro porque não tiveram oportunidade de educar-se e não conseguem ter acesso fácil a publicações; pessoas que sofrem por isso, sentem e lamentam sua limitação. O caso do jovem bilionário me parece muito pior. Pelo jeito, ele não consegue ter apetite intelectual suficiente, nem consciência dos valores que despreza. Triunfará, sem dúvida, na plutocracia brasileira; mas espero que não venha a tornar-se Ministro da Educação.

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