Reflexões

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VINTE E DOIS FRAGMENTOS QUASE METAFÍSICOS

“Metafísica” é um nome dado por engano (dos estudiosos de Aristóteles) a um tipo muito importante, curioso e produtivo de fantasia de que os pensadores e as crianças não conseguem nunca livrar-se, mesmo quando querem eliminá-la. Poesia inconfessa, talvez. Filha da mitologia que devorou, costuma cegar quem a despreza.

Precisa-se de um centro até para ser excêntrico.

Quem não quer o poder, quer a impotência. Quem só quer o poder e o deseja apaixonadamente apodrece ao tocá-lo.

Se o ouvido não é franco, a boca também não é.

Chama-se de “mistério” o que só o silêncio sabe dizer.

Quem não tem inimigos não presta. Quem só tem inimigos, tampouco.

Mitologia: Deus morreu e criou o mundo com o corpo de que se separou. Descarnado, perturba os homens com sua poderosa ausência. Tentando imitá-lo, muitos insistem em separar alma de corpo; mas esta espécie de morte nada produz em quem não é divino. Morto, Deus não acaba: o fértil Fantasma vive de sua imaginação, fecundando aqueles que sua saudade anima. Assim sua morte se repete infinitamente. E multiplica sua vida também pelo infinito.

O sonho desperta. A imagem vê.

Ao mestre agradeço não pelo que me deu, mas pelo que me tirou.

A estupidez tem muitos admiradores.

Ao mestre agradeço por não ser discípulo.

Se o mar a cobrisse inteira e por todo o tempo, esta faixa de areia não seria praia; se ele nunca a tocasse, tampouco o seria. Praia é o que o mar cobre e descobre. Assim somos nós: uma praia do ser.

Por vezes, novos mundos tocam e penetram os horizontes do nosso. Pode ser que os provoquemos, sem o saber; pode ser que apenas cumpram uma órbita ignorada. Mas de vez em quando, ocorre esse inesperado advento: as palavras ganham novos sentidos, as coisas deixam de ser objetos, os gestos triviais se transfiguram e tomam a feição de uma dança desconhecida. Celebramos mistérios que nos transcendem, verdades e valores que ignoramos de fato.

A verdadeira bondade é a mais alta forma de inteligência.

Desejo: a carência elevada ao sonho.

Não há coisa mais fascinante que a religião. Nem mais horrível que a religião.

A má fé não admite dúvidas.

Crentes que não suportam a dúvida, sendo, por isso mesmo, incapazes também de fé, combatem covardemente sua angústia empenhando-se em converter os outros.

Deus não mente, mas engana.

As idéias também degeneram.

A idéia de universo é obstinada e cega, exige uma crença absoluta, ou uma espécie fascinante de embriaguez. Embora com pouco espaço na ciência, na poesia vive o multiverso.

É curioso: obcecados pelo universal, todos nos tornamos especialistas.

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Um comentário sobre “Reflexões

  1. Nego, que beleza de texto. É uma felicidade viver com você. (Tenha paciência com a gata).
    Te amo.Beijo.

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