LEMBRANÇAS DE BRASÍLIA, parte 2

Nos anos em que lá estudei, o Centro de Estudos Clássicos era um importante núcleo irradiador cuja influência se fazia sentir em toda a Universidade. Estudantes e professores de diversas áreas eram assíduos frequentadores.  Quando Carlos Petrovich foi à UnB para uma tentativa de lá implantar um Curso de Teatro, teve pronto apoio de Eudoro de Sousa, que então fez uma série de conferências sobre tragédia grega no Auditório Dois Candangos. O CEC tinha um belo acervo de livros e microfilmes, uma boa mapoteca, gabinetes e espaço de reuniões, onde os seminários internos aconteciam. Ficavam em um armário especial as estampas com reproduções de pinturas de vasos gregos e fotos de monumentos, estátuas, relevos, sigilos, moedas. Além dos livros especializados, essas estampas eram muito úteis para familiarizar-nos com a iconografia helênica, romana e greco-romana. Estudantes de arquitetura e artes plásticas sempre apareciam à procura desse material.

 

Como se sabe, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira tudo fizeram para reunir na UnB o que encontraram de melhor no meio universitário nacional. Sonhavam constituir aí uma nova vanguarda da inteligência brasileira.  Darcy levou Agostinho da Silva para Brasília a fim de que lá ele fosse “a presença de Portugal”. A Eudoro de Sousa deu a missão de implantar no cerrado candango os estudos clássicos. Este criou logo o CEC no campus poeirento da universidade em construção. O primeiro passo foi a formação de uma biblioteca especializada. O segundo foi povoá-la com  estudiosos de boa cepa. O CEC começou prontamente a atuar, oferecendo cursos de graduação e pós-graduação, com um pequeno grupo de mestres que ali se reuniram sob o comando do coordenador.

 

Uma boa biblioteca, com espaços adequados à pesquisa erudita, à reflexão, ao  exame de documentos, onde os estudantes e pesquisadores possam reunir-se, consultar-se uns aos outros, desenvolver projetos e trabalhar à vontade, isoladamente ou em equipe, é tudo de que se precisa para o funcionamento de um núcleo dessa natureza, tanto mais produtivo quanto maiores forem sua abertura interdisciplinar e seu dinamismo. Quando cheguei ao Centre Louis Gernet para um estágio, muito tempo depois,  senti-me em casa. O CLG ainda funcionava, então, na simpática Rue Monsieur le Prince. A rigor, era uma biblioteca especializada com uma grande mesa na sala principal, onde os estudantes ficavam a ler; tinha uma secretaria, um gabinete do diretor, espaços reservados para o uso dos pesquisadores do quadro da casa, bibliotecárias competentes a postos, recursos de apoio ao estudo e à consulta dos livros, das revistas, dos registros iconográficos etc. Guardadas as proporções, nosso velho CEC da UnB foi  concebido da mesma maneira. Pena que esse modelo tão simples e eficaz não tenha tido vida mais longa na UnB.

 

Como se sabe, a Universidade de Brasília sofreu muito com o golpe de 1964. Foi  invadida pouco depois da implantação do governo militar, numa verdadeira operação de guerra. Testemunhei essa invasão estapafúrdia. Deu-se ela em um dia em que se fazia a mudança do CEC, do barracão onde primeiro se instalou para as salas do subsolo da Reitoria. Cheguei a ser detido, enquanto transportava as apostilas de grego. Um zeloso soldado desconfiou de que se tratava de material subversivo: “Veja, sargento, isso parece russo!” O sargento, menos estúpido, logo se deu conta do absurdo da hipótese de estar alguém distribuindo panfletos em russo em Brasília e mandou-me andar —  um tanto incomodado, também, pelo meu sorriso divertido em meio àquela confusão. Foi meu primeiro contato com o febeapá da “gloriosa”. (Sucederam-se a essa outras invasões do mesmo tipo, sempre com detenção de estudantes e professores “suspeitos”.  E mais de uma vez fui suspeito).

 

Conhece-se bem a história da grande crise que afetou a universidade candanga em 1965, quando o reitor designado pelo governo militar resolveu fazer nela um indecente expurgo político, começando pela demissão sumária e injustificada de um mestre. Em reação a essa medida, demitiram-se de uma só vez duzentos e vinte e três professores. (O governo os substituiu depressa, recrutando docentes a torto e direito). Parte dos demissionários acabou por sair do país. Essa evasão de cérebros foi um dos graves danos causados ao Brasil pela ditadura. Os bons professores que resolveram ficar na UnB foram, em diferentes momentos, muito “patrulhados” por isso. Mas creio que sua decisão de permanecer e resistir  impediu o total desmoronamento da instituição. Se não o fizessem, seria mais rápida, fácil e completa a vitória do obscurantismo, com efeitos quiçá irreversíveis para a Alma Mater brasiliense.

 

Eudoro ficou. Caso ele não tivesse ficado, mais cedo se teria acabado o CEC, sem deixar as sementes que deixou; muitos estudantes teriam perdido a oportunidade de  formar-se com seus ensinamentos e sua sábia orientação; pesquisas e teses valiosas não se teriam concluído;  um tesouro de inteligência e cultura nos escaparia e a UNB ficaria sem uma de suas grandes estrelas. Creio que pesou na sua decisão um elemento importante: português de nascimento, ele já se considerava brasileiro e não queria deixar sua nova pátria. Tampouco queria desistir da universidade tão sonhada, de que foi um dos fundadores. Pagou caro por este sonho.

 

Apontado por um energúmeno, Eudoro de Sousa foi indiciado como subversivo e respondeu a um inquérito policial militar. Ele não tinha atividade política, mas era clara sua simpatia pelos estudantes sempre rebelados. Era amigo de Honestino Guimarães, líder estudantil assassinado pela repressão. Por falta de provas, Eudoro não foi preso, foi apenas fichado. Mas os seus  colaboradores do CEC logo viriam a ser atingidos por medidas arbitrárias do interventor que ocupava a reitoria da UnB nesses anos de chumbo. Em 1968, o Professor Xavier Carneiro foi desligado sem que lhe dissessem o motivo. Pouco depois, o CEC foi extinto. Quando de sua extinção, o latinista Suetônio Valença e eu, que então fazíamos o Mestrado, tivemos nossas bolsas cortadas e nossas matriculas anuladas sem qualquer explicação. (Outros colegas sofreram esta espécie de expulsão branca, um pequeno expurgo feito pelo interventor, atingindo principalmente jovens pós-graduandos com fama de contestadores). O belo acervo do CEC foi transferido para uma sala obscura da Biblioteca Central da UnB. (Custa-me crer que está todo ali). Eudoro continuou a dar aulas, mas vivia quase isolado na sua Universidade. Emanuel passou uma temporada na cadeia, por militar contra a ditadura. A Dissertação de Mestrado que eu preparava não foi concluída. Muito mais tarde, voltei parcialmente a seu tema, no estudo que acompanha a minha tradução do Hino Homérico II A Deméter, obra que esteve entre as finalistas do Prêmio Jabuti.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s