DISCURSO DE POSSE DE ORDEP SERRA NA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA

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Começarei por uma ampla saudação: quero dar a minhas palavras a forma de um abraço, singular e múltiplo. Nele  envolvo com alegria meus novos confrades, a Casa douta, os amigos que a ela me trouxeram, seu ilustre Presidente e todo o público generoso aqui reunido, formado por pessoas queridas. Abraço a todos e cada um, temperando com afeto minha reverência às autoridades presentes. A honra que me fazem há de retornar a seu seio, multiplicada por gratidão e carinho.

Hoje me cabe fazer homenagens. A bela praxe da Academia com justiça me impõe lembrar o patrono e os antecessores, os homens ilustres que enobreceram a cadeira da qual serei o novo ocupante. Vou fazê-lo com prazer. Mas antes tenho  que percorrer uma trilha maior de celebrações.

Ela começa em terreno banhado pelos rios do tempo, um remoto mundo menino. Para visitá-lo, preciso de achar a trilha certa, em que a saudade não me afogue e o floo da onda irrevogável não me perturbe. Tenho, por sorte, excelentes guias: meus netos Carlos e Letícia, acendem a aurora que me assinala o caminho. Na infância a que os dois me devolvem, faço minha primeira estação de festa. Reverencio o homem sereno cujo brando sorriso me banhava de alegria. Em minha lembrança, desfruto de novo a luz dos olhos calmos que me acompanharam nos primeiros passos, nas primeiras letras. Sinto sua amável presença, seu humor discreto, sua ponderação. Primeiro dos mestres, ele bem cedo me convenceu, por seu claro exemplo, de que a paz é a coroa do juízo, a grande meta da sabedoria, seu motor imóvel.

A seu lado, outra visão me deslumbra. Reverencio a mulher luminosa que dava nomes divinos às cabras e brindava seus filhos com poemas: a altiva sertaneja que não teve escola, mas se empenhou em fundar um colégio e dirigiu uma biblioteca. Seus conterrâneos ainda colhem os frutos de sua cultura. Por sua iniciativa, preservou-se uma cidade histórica. Seus versos, tal como suas telas, ainda hoje custodiam o patrimônio de Rio de Contas, que também integram. Declaro alegremente minha gratidão ao belo casal de cujo amor nasci: reverencio Pedro e Ester, que fizeram dos livros meu brinquedo predileto e ainda hoje me inspiram com seu poético exemplo.

A seu redor diviso um coro variado de mestres de encantamento: violeiros, contadores de causos, músicos de reisado tangendo bois dançarinos, rezadeiras, cordelistas, ourives de sol e lua. O grupo logo aumenta: incorpora melodiosos tropeiros que trilham as veias do sertão, chegam aos serros do Sincorá, alimentam as feiras do Jequi, tocam a Chapada e de novo descem rumo ao litoral. Aos poucos eles se transformam: cavalgam, agora, um trem de ferro. Já no Recôncavo, entre Cachoeira e Salvador, o coro mágico agrega sereias, orixás e profetas, anjos barrocos, mandus e madonas. Seu canto multicolorido corta as ondas num imponderável navio telúrico, com uma gloriosa tripulação de diabinhos risonhos.

O coral viajante chega ao porto de Iemanjá onde tem a regência fantástica de Jorge Amado. Mais adiante, João Ubaldo tomará a batuta – que é, ao mesmo tempo, um pincel de Carybé – e desenhará novos maestros, gente de todas as músicas. Com eles chegam alabês, mestres de capoeira, marujos alucinados, jagunços líricos, sambistas das festas de largo, boêmios à volta de um Anjo Azul, pescadores com cestos de oferendas, baianas de acarajé, lânguidas ninfas da praia, foliões da avenida que um trio elétrico enlouquece e uma legião multicor de artistas: são poetas da Boa Terra, muitos deles indo e voltando desta Academia, a levá-la para a rua festiva, que depois lhe incorporam, num baile de luzes, com as cores delirantes de Jenner Augusto. O marulho do violão de Caymmi embriaga os navios, envolve a Bahia que Rômulo Almeida reinventa, contorna os seios da cidade onde Milton Santos logo virá sonhar uma ousada hermenêutica dos espaços. Numa praça radiosa, à vista de minha saudade, de mãos dadas com o povo da terra dançam baianos do mundo inteiro: Rolf Gelewsky, Yanka Rudzka, Ernst Widmer, o bruxo Smetak, o mago Kollreuter e Lina Bo Bardi, Agostinho da Silva e Pierre Verger misturam-se à negrada na grande ciranda de Edgar Santos. Sinto que ela se prolonga: ainda vejo meu primo Lindenbergue Cardoso a marcar-lhe o ritmo. Glauber Rocha, com sua câmera dialética, rica de mistérios, faz girar a Terra do Sol. À porta de uma catedral demolida esbraveja o silêncio do Conselheiro arrancado ao ventre de uma árvore santa por artes sutis de Mário Cravo. À volta, florescem melodias docemente bárbaras. Nascem no Teatro dos Novos, em meio à safra dionisíaca de Martim Gonçalves, os fascinantes cantores da Tropicália.

Não estranhem, amigos, a figura exótica que se insinua nesse meio e me toma pela mão. Sei que a conhecem bem, a toga que ostenta não os surpreende. Eu o vejo elevar-se que nem o álamo (ou seria um loureiro?) sonhado por sua mãe às vésperas do parto feliz. Agradeço aos excelentes professores que abriram para mim a porta latina: graças a suas lições encontro o divino cantor de Eneias a bordo de seu maior poema, no Colégio abençoado pelo nome de Antônio Vieira. Atraído pelos versos fascinantes do mago de Mântua, procuro a fonte onde ele bebeu: Virgílio me faz sonhar com Homero.  E vou a Brasília em busca de quem me revele sua poesia.

Chego, então, à Universidade que Anísio Teixeira e Darci Ribeiro estão a construir com ardente matéria de sonho para berço de um novo Brasil. Bem cedo ela será atacada pelo obscurantismo de uma ditadura estúpida. Em diferentes momentos vão deixá-la muitos de seus artífices e inspiradores – sábios, artistas, cientistas, mestres eméritos -: Roberto Salmerón, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Waldir Pires, Nelson Rossi, Cláudio Santoro… Centenas. Duzentos e vinte e três partirão numa só leva. Assisto a invasão do novo campus, várias vezes repetida, por tropas lamentáveis que nem mesmo percebem onde se acham, muito menos entendem o sentido de seus próprios atos. Logo na primeira ocupação, as apostilas de grego que transporto me fazem suspeito aos olhos de um zeloso soldado. O infeliz imagina que eu carrego documentos em russo, propaganda soviética, sei lá o quê. Assim me torno o mais risonho dos universitários presos – e um dos primeiros a ser liberado: um oficial finalmente percebe que todos os detidos se divertem com meu caso. Mas logo terei de tomar cuidado, pois os novos fiscais da política não demoram a descobrir que participei, no papel de monitor, do perigoso projeto de alfabetização de Paulo Freyre. Que já é um proscrito. Começo assim a aprendizagem da luta renhida pela democracia.

Calma, não devo antecipar. Quero deter-me um pouco no momento, para mim decisivo, em que encontrei Eudoro de Sousa, o mestre a quem devo minha formação intelectual. O célebre helenista, historiador e filósofo, amigo de Jaspers e discípulo de Heidegger, o erudito filólogo que se divertia estudando astrofísica, revelou-se um homem singular, arrebatado, generoso, com um temperamento explosivo e terno ao mesmo tempo. Travamos logo uma amizade profunda. Com este sábio descobri as riquezas da língua grega, os tesouros históricos acumulados na bacia do Mediterrâneo, os esplendores do Egeu. Comecei pelos grandes poemas atribuídos a Homero.

Ainda me lembro com emoção do dia em que terminei minha primeira leitura da Ilíada no original. À noite, fui celebrar esse feito em um boteco próximo ao campus, um barracão de madeira frequentado pelos peões que então edificavam o Instituto Central de Ciências. Não demorei a ficar inteiramente bêbado, pois aderi ao perigoso contraponto etílico dos candangos: a cada copo de cerveja, um estimulante gole de pinga. O resultado foi esquisito. Apenas me lembro de que a certa altura subi a uma mesa e comecei a recitar o primeiro canto da grande epopeia.

Não fui longe. Quando o sacerdote Crises invocou o senhor do arco de prata e o deus soturno veio, todo noite, nyktí eoikós,  dizimar com suas flechas de peste os mulos, os cães e os guerreiros aqueus, a emoção já me banhava o rosto.

Deu-se então o inexplicável. Seria de esperar que a assistência vaiasse o desatinado, o moço bêbado que proferia com voz de assombro estranhos versos em língua desconhecida. Mas foi o contrário que sucedeu. Os candangos analfabetos (em grego, pelo menos), aplaudiram com entusiasmo. No dia seguinte, ao ressuscitar de uma ressaca homérica, julguei que Zeus tinha-me enviado um sonho bizarro. Mas ao chegar ao campus fui saudado por um peão, companheiro da recente farra, com efusivos parabéns: “Eh, baianinho danado! Que discurso bonito você fez ontem!”

Ainda estou perplexo. E só lhes conto essa passagem para explicar porque relaciono aqueles excelentes candangos entre meus mestres de poesia.

Só um colega do Centro de Estudos Clássicos achou tudo muito natural, não viu motivo algum para estranheza no acontecido. Foi justamente meu conterrâneo Jair Gramacho, o saudoso poeta, que encontrei no dia seguinte, na W3, abraçado a uma garrafa de vinho, festejando o aniversário de seu querido amigo Quintus Horatius Flaccus. Agradecido, sinto que devo incluir esses dois vates na minha homenagem, ao lado de Eudoro, de Homero e dos peões dionisíacos.

Na UnB iniciei minha carreira de professor universitário, ensinando grego a alunos de graduação dos Cursos de Letras, de Humanas e até de Ciências da Saúde. Também dei aulas a colegas mestrandos do próprio Centro de Estudos Clássicos. Mas isso pouco durou. Minha incipiente carreira foi logo truncada: no período sinistro em que a ditadura se agravou e recrudesceram os ataques do obscurantismo à instituição universitária, um interventor tacanho, instalado abusivamente na reitoria da UnB, determinou o fechamento do notável Centro. Eudoro de Sousa foi acusado de subversivo por um energúmeno (um espião que mais tarde os estudantes expulsaram do campus) e respondeu a um Inquérito Policial Militar. Ele não tinha qualquer atividade política, mas era por demais amigo de seus alunos e praticava a liberdade de pensamento – coisa, na época, muito mal vista. O Professor Xavier Carneiro foi arbitrariamente demitido. Outros membros do CEC, como o também baiano Emanuel Araújo (o egiptólogo), viram-se redistribuídos. (Tempos mais tarde, Emanuel foi parar na cadeia, em razão de sua luta contra a ditadura). Tive cassada minha matrícula e cancelada a bolsa que recebia: uma espécie de expulsão branca, sumária, sem explicações. Assim como outros que a sofreram, eu era assíduo nos protestos contra o regime, na contestação dos desmandos que padecia a UnB. Era, sim, subversivo. Acho que continuo a ser. Com muito gosto: não me arrependo nem um pouco.

Mais tarde, quando a ditadura já começava a cair de podre, voltei à Universidade de Brasília para fazer o mestrado em Antropologia Social. Tive excelentes professores. A todos homenageio, na pessoa de Roberto Cardoso de Oliveira, saudoso mestre, um dos patriarcas da nossa antropologia. Foi uma época bonita em que Brasília me premiou com muita felicidade. Eu costumava frequentar o espaço do Instituto Central de Artes, onde tinha lugar outro Programa de Pós-Graduação; mas confesso que não o fazia por interesse na ementa das disciplinas. Lá não assisti aula nenhuma. Em todo o caso, o motivo de minhas visitas era nobre. Nunca cesso de admirar uma propriedade mágica dos cursos de arquitetura, que sempre atraem bandos de moças bonitas. Com uma delas me casei, poucos meses depois de iniciado um namoro que dura até hoje, com paixão cada vez maior.

O casamento me rendeu grandes alegrias e também mudanças positivas no plano intelectual. Tornou-me muito mais criativo. Minha produção foi bem pequena no período anterior, cresceu e tomou vulto após o matrimônio. Dividindo minha vida em “antes de Regina” e “depois de Regina”, verifico que só na presente era passei à condição de escritor, título que aqui me traz. Escrevi meu primeiro conto, que mais tarde foi premiado num concurso literário, com o puro propósito de atrair a querida contando-lhe histórias da minha terra (esse conto, de nome “Ajuda”, faz a celebração dos ótimos diabos de Cachoeira). Acho que deu certo. Agora tenho trinta e seis anos de recém-casado e minha produtividade continua a crescer. Nada como uma boa musa! Agradecido, reverencio com muita saudade Carlos e Juracy, casal generoso e encantador a quem devo o que tenho de melhor, o melhor de mim: Dona Regina, evidentemente.

Ainda no período de minha primeira pós-graduação, passei uma temporada no Parque Nacional do Xingu, onde tive uma rica experiência de campo e fiz grandes amigos na fantástica ecumene que circunda as cabeceiras do rio, nicho de uma bela civilização selvagem. Impossível citá-los a todos. Elejo os saudosos Naho e Takuman, príncipes, respectivamente, dos Kuikuro e dos Kamayurá, para a homenagem que devo à gente xinguana, a suas culturas entrelaçadas, a seu mundo encantador. Ao mesmo tempo, celebro a luta que lá empreendem as novas lideranças – ao lado de antigos guerreiros como o cacique Raoni – em defesa da esplêndida bacia hoje severamente ameaçada. E aproveito para reiterar meu protesto contra a indecente política brasileira de desrespeito contumaz aos povos indígenas, às riquezas naturais por eles preservadas.

A prática antropológica me aproximou de vários povos e comunidades que sofrem abuso, violência, privação de direitos. Comprometeu-me com muita gente. Nisso foram meus modelos Olympio Serra e Pedro Agostinho. Perigosos modelos, pois me envolveram em grandes lutas. Por sua causa amplio aqui meu rito de homenagem: faço uma saudação especial aos Tupinambá da Serra do Padeiro, hostilizados com perversa tenacidade por inimigos que cobiçam suas terras e contam com ferozes cúmplices no aparelho de estado. Saúdo o cacique Babau, o mais frequente preso político do Brasil de hoje. Homenageio da mesma forma o povo sofrido do Quilombo de Rio dos Macacos, agredido covarde e sistematicamente, com estudada brutalidade, por uma força pública nacional. Estendo esta saudação dolorida à dizimada juventude da periferia de Salvador, a Roma Negra que está sendo branqueada à bala, perante a indiferença dos nossos Pilatos. Fico só com esses exemplos, pois se fosse enumerar todas as gentes que padecem esbulhos e sofrem sevícias em nosso país, seria muito longo este discurso. E triste demais. Eu os evoco saudando quem luta por eles, como fazem, entre outros, Márcia Virgens, Lidivaldo Brito, Yulo Oiticica, Rafael Soares, Lorena Volpini e o incansável Júlio  Rocha.

Mas quero também falar de avanços, de triunfos. Relembro uma proeza de Olympio Serra que me evoca a história do ovo de Colombo: uma surpreendente e inovadora descoberta do óbvio, seguida de uma reconquista do tempo perdido, uma feliz intervenção curativa na grande amnésia do Brasil. Chamado a ocupar um posto de coordenação na antiga Fundação Pró-Memória, ele resolveu desafiar o vezo etnocêntrico, o cristalizado viés elitista que marcava, até então, a política de preservação do nosso patrimônio cultural. Descobriu Olympio que monumentos da gente branca e da classe de renda superior eram os únicos a merecer registro nos livros de tombo do IPHAN: uma evidência que ninguém via, como há pouco Lidivaldo Brito mostrou. Feita essa curiosa descoberta, Olympio atirou-se à campanha que resultou no tombamento da Serra da Barriga, sede do quilombo de Palmares, com a fundação do Memorial Zumbi. Simultaneamente, fez-me a encomenda de um projeto voltado para a proteção de monumentos da tradição afro-brasileira. Elaborei esse projeto com a ajuda do arquiteto Orlando Ribeiro e tornei-me seu coordenador. Pela primeira vez, um órgão de planejamento da prefeitura municipal desta metrópole veio a ocupar-se de um tipo de assentamento urbano que antes nunca havia considerado: os numerosos terreiros da capital baiana.

Nossa iniciativa teve pelo menos um grande sucesso: em 1984 o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, o venerável Terreiro do Engenho Velho, o formoso santuário da Casa Branca, tornou-se o primeiro templo de uma religião de matriz africana tombado no país, o primeiro monumento negro a ser oficialmente considerado patrimônio histórico nacional. Para isso, foi preciso vencer uma dura resistência no seio do próprio IPHAN. Homenagem faço a Aloysio Magalhães e Marcos Vinicius Vilaça, que abraçaram resolutamente a causa e perseguiram de forma tenaz sua realização.

Hoje há sete templos dessa natureza tombados no Brasil, seis deles em Salvador. Fui autor dos laudos antropológicos que fundamentaram a medida em quatro dos correspondentes processos (Casa Branca, Bate-Folha, Gantois, Oxumarê) e também integrei a equipe responsável pela exposição de motivos que fundamentou o tombamento da Serra da Barriga. Agora estou apoiando uma ousada iniciativa de lideranças de grandes abaçás baianos: cinco veneráveis Casas se propõem a trabalhar para que a cidade sagrada de Oyó, antiga capital do império ioruba (hoje parte do território da Nigéria) seja reconhecida pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Faço aqui minha homenagem ao templo de Iyá Nassô, ao Gantois, ao Ilê Oxumarê, ao Opô Afonjá e ao Ilê Maroiá Laji, que deflagraram essa bela campanha.

Do povo de santo, tenho conhecido grandes homens e mulheres. Muitos teria a celebrar. Do valor dessa gente bem sabem os membros da Academia que incorporou a seus quadros uma grande Ialorixá baiana, a Venerável Iyá Xangô, Odé Kayodê, Maria Stella de Azevedo Santos. Por falta de espaço, limito-me à recordação de dois outros sacerdotes do axé, juntando, no que lhes toca, a reverência à gratidão. É que ambos foram meus nominadores. Nas sociedades tradicionais de cuja herança me orgulho, o nominador deve ser especialmente honrado.

Com saudade, festejo o Venerável Elemaxó do Engenho Velho, Antônio Agnelo Pereira, que me presenteou com uma epiclese do Rei ardoroso. Olufihan me declaro, ciente do compromisso de luta que envolve este oiê. É um título um tanto curioso para um pacifista como eu, pois Olufihan quer dizer “guerreiro”. Mas sou grato à dádiva do bom ministro de Oxalá, pois ele detinha saber e autoridade. Aceito o dever que me impõe este nome solene, herança de Xangô: a luta constante por justiça.

Com alegria, homenageio também o Venerável Babá Pecê, Silvanilton da Encarnação Mata, que rege o Palácio do Arco-Íris, o magnífico santuário baiano de Oxumarê. De seu egbé recebi um nome que muito me honra, Olopitan. Graças ao bom amigo e a sua ilustre Casa, creio que sou o único historiador brasileiro com título dado não por uma universidade, mas por uma organização popular, uma instituição tradicional da Bahia negra.

Minha louvação se eleva agora ao tom do oriki: celebro o Rei de Justiça, o generoso e apaixonado Senhor do Fogo, semeador de luz e de encantos; invoco a Rainha de nove mundos, dançarina do vendaval, bela guerreira armada de raios, mãe amorosa. Por meio de ambos festejo a família inteira dos Encantados. Com sua bênção quero prosseguir meu rito de homenagem.

Não posso negar-me a fazê-lo. A sabedoria da Língua Portuguesa me adverte: ingrato é o mesmo que desgraçado. Não tenho como nomear todos os homens e mulheres a quem devo gratidão; mas pelo menos contemplarei algumas pessoas capazes de simbolizar os inúmeros merecedores de meu reconhecimento.

Em meu doutorado fiz amplo contato com gente boa, ilustre e sábia. Haiganuch Sarian, minha orientadora, excelente arqueóloga, filóloga respeitada, helenista de prestígio internacional, muitos caminhos me abriu. No Centre Louis Gernet da École de Hautes Études en Sciences Sociales, os saudosos  mestres Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Nacquet me acolheram generosamente. O assiriólogo Jean Bottero, bondoso amigo de quem tenho muita saudade, fez-me reaproximar de seus akadianos, rever a trilha de Gilgamés. Aos mestres de Paris e da USP continuo, até hoje, muito agradecido.

O caro amigo François Laplantine foi meu cúmplice na tentativa de aproximar nossas universidades, a UFBA e a Lyon II. Quando nada, realizamos três ótimos seminários Lyon – Salvador: um lá e dois aqui.

Por longo tempo, abriguei-em à sombra de uma grande árvore plantada por Thales de Azevedo. Exerci meu ofício de professor em dois departamentos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA e mesmo aposentado ainda participo de um seu Programa de Pós-Graduação. Não vou citar todos os bons colegas que tive e tenho, mas creio que celebrando nosso patriarca homenageio a turma inteira.

Permitam-me que celebre também a mais extravagante  das ciências sociais, a que continuo dedicado. Espero que meus colegas não achem muito irreverente este elogio que lhe faço em forma de parábola. É mesmo assim que vejo a Antropologia: como a macaca que finalmente olhou para o próprio rabo e, com o susto, passou por uma bela metamorfose. Ficou bonita, embora desvairada. Tornou-se uma princesa sem trono, que por não ter reino nem domínio algum frequenta as encruzilhadas: reconheceu-se filha de Hermes e namorada de Exu. Tendo descoberto seu próprio etnocentrismo, ela já não se contenta em ser um discurso ocidental sobre o resto do mundo. Ficou de todo excêntrica. Com muito gosto, traiu os impérios onde teve berço. É hoje uma estrangeira onde nasceu,  e em qualquer lugar onde se instale, erotizada pela saudade, sempre faminta de diálogo e cheia de dúvidas. Há quem a considere demasiado errante e promíscua; há quem lhe reprove a mania de relativizar. Já eu espero que ela continue assim: inquieta, desaforada e um tanto escandalosa, herética, viciada em poesia.

Celebro também outra dama esquisita cujos delírios ainda me fascinam. Caboclo da aldeia cachoeirana, malungo de terreiro, poeta de cordel, por causa do mestre Eudoro tornei-me visitante de ilustres cenáculos. Eudoro mostrou-me a primeira Academia, que era um jardim. Como tantos têm feito, ao longo de séculos, procurei alimento no Banquete de que ainda se nutrem os pensadores modernos, se está certo Whitehead. Para este, como todos recordam, a filosofia que até hoje se faz cifra-se em comentários à margem de Platão. Será um exagero, por certo: eu o quis transpor valendo-me da metáfora com que a soberba modéstia de Ésquilo qualificou sua própria poesia, quando ele disse que os criadores da tragédia se nutriam das migalhas do festim homérico. No banquete platônico, Eros foi celebrado, mas deixou a sala ainda faminto, pois é insaciável. E exagerado. Por amor dele, fugi da severa República de que o próprio Platão se exilou: afinal, era poeta,  nem ele mesmo o pôde negar. Relendo, há pouco, sua sétima epístola (que talvez nem seja sua) me convenci de que o grande filósofo, o primeiro acadêmico, nunca se ateve à letra de seus teoremas. Hoje procuro filosofia que cante e dance, como dizem que Parmênides fez quando o deslumbrou a revelação do Ser, no termo de uma viagem arrebatadora em carro divino puxado por éguas sagazes para além do horizonte. Nessa busca ainda prossigo, como diletante – título não desprezível, segundo Schopenhauer. Ainda tento seguir os passos da Dama esquisita, que sempre louvo, pedindo perdão pela ousadia aos seus seguidores profissionais. Eu os admiro, mas uma coisa não entendo: porque tanto se obstinam em decretar a morte de sua amada e promover-lhe sucessivos enterros? Já deviam ter notado que ela sempre ressuscita. Peço de novo aos filósofos aqui presentes que não se zanguem com meu atrevimento. Eu já disse que os admiro e não quero, de modo nenhum, ser irreverente. Juro pelas pernas de Diotima.

Após este elogio imprudente, sinto-me obrigado a mais uma homenagem: devo-a aos alunos com que aprendi e aprendo. É claro que não posso relacionar suas numerosas turmas, mas a todos me declaro agradecido. Felizmente continuo a beneficiar-me do contato com muitos deles. Agradeço também a minhas filhas, Marina e Helena, e a meus netos, Carlos e Letícia, que seguem cuidando de minha educação.

Não posso esquecer-me tampouco dos bravos companheiros de luta pela cidadania. Saúdo os colegas do Movimento Vozes de Salvador, do Grupo Hermes de Cultura e Promoção Social, de Koinonia, do Desocupa, do SOS Barra, da nova Amabarra, do Movimento Nosso Bairro é Dois de Julho e do Fórum A Cidade Também É Nossa. Este fórum a cujas campanhas hoje me dedico de um modo especial reúne trinta e nove associações mobilizadas em defesa de nossa urbe, empenhadas em proteger a princesa do Atlântico ferozmente maltratada, desfigurada, mutilada pela ganância infrene de quem enxerga seu espaço como simples mercadoria. Saúdo quem defende Salvador da rapina, do esbulho, da destruição de suas áreas verdes, da venda imoral de seus espaços públicos, do sepultamento de seus rios urbanos, da cruel segregação que nela cresce por obra de contumaz injustiça e de um vergonhoso sacrifício do planejamento urbano, entregue a empresas privadas em prejuízo do interesse público. Saúdo quem, no país inteiro, combate esse urbanismo de apartheid e defende o direito do povo à cidade. Celebro com particular carinho os inconformados com a degradação galopante da Região Metropolitana de Salvador e com as agressões brutais à Bahia de de Todos os Santos. A propósito, peço a meu caro amigo Agostinho Muniz que leve meu abraço aos sete jornalistas baianos processados por exercer com brio a liberdade de imprensa. Solidarizo-me também com quantos, dentro e fora desta Academia, se obstinam na defesa de nosso patrimônio histórico e resistem a um sistemático descaso para com nossas riquezas culturais. Abraço, enfim, todos os que lutam contra abusos, desmandos e violências feitas a nosso povo.

São muitos os que assim homenageio. Imposssível nomeá-los a todos e louvá-los como bem merecem. Fiel a meu método, escolho para os representar duas pessoas, duas mulheres admiráveis. Em nome de Todos os Santos da Bahia, bendigo Cristina Seixas, bendigo Hortênsia Pinho. Sua dignidade, valor e inteligência as tornam símbolos do que nossa Bahia tem de melhor.

Como sei que ambas gostam de música, quero associar-lhe nessa homenagem dois dos Novos Baianos, uma dupla ilustre: Carl von Hauenschild e Daniel Colina. Ficam eles a dever-lhes, desde agora, um tango e um lied.

Estendo, por fim, minha saudação a quantos, pelo mundo afora, lutam por democracia verdadeira, com transparência e participação efetiva do povo nos processos de planejamento e gestão, na prática do governo responsável. Saúdo quem exige respeito aos direitos humanos e pugna pela preservação do meio ambiente. Festejo quem não se conforma com a desigualdade, com a opressão e a injustiça.

Com este mote passo ao núcleo de minha louvação, agora dirigida, segundo a boa praxe, aos que me antecederam na sede a mim destinada pela boa vontade dos membros desta egrégia Academia.

O patrono da cadeira que devo ocupar foi um cientista, um brilhante médico e professor: Francisco Rodrigues da Silva, que nasceu em 1831 aqui em Salvador e faleceu em Paris, em 1886. Homem erudito, escreveu tratados de Física e Química, mas também se ocupou de educação. Tratou do que hoje chamamos de ensino fundamental e médio (primário e secundário, na nomenclatura da época), assim como das escolas normais; porém aplicou-se principalmente ao exame dos problemas que em seu tempo afetavam o ensino médico. Com toda a franqueza, criticou o despreparo dos alunos que lhe chegavam à Faculdade de Medicina. Isso bem indica que ele tinha razão de preocupar-se com a formação preliminar dos estudantes, candidatos ao curso no qual pontificou. Consciente do seu papel de mestre, examinou com rigorosa atenção o “Estado do Ensino Superior”, apontando os “vícios e lacunas de sua organização” e preconizando as “reformas necessárias”. A seu critério, as que se ensaiaram no seu tempo eram falhas e precipitadas. Travou boa luta contra a burocracia dos regulamentos frouxos que davam espaço a práticas pedagógicas irresponsáveis. Vê-se bem que era um homem sério, um docente digno. Com muita justiça ele integrou o Conselho Superior de Instrução Pública, em que teve papel de destaque. Experiência didática não lhe faltou: além de ter ensinado Geometria e Trigonometria no Liceu Provincial, ele ocupou duas cátedras na Faculdade de Medicina da Bahia, de que veio a ser Diretor. Era titular deste cargo quando faleceu. Homem de prol, teve reconhecidos seus méritos: recebeu as comendas das Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo. Sua atuação na Campanha do Paraguai lhe valeu uma medalha. Respeitado como poucos na profissão, ganhou fama também por seus dotes de orador e ingressou na política: elegeu-se deputado à Assembleia Legislativa da Província.

Foi também um médico e um educador o primeiro a ocupar a cadeira 27 desta Academia: o Dr. Frederico de Castro Rebelo, nascido em Salvador no ano de 1885 e falecido na mesma cidade em 1928. De acordo com o Dr. José Tavares Neto, Castro Rabelo inaugurou a cátedra de pediatria da Faculdade de Medicina da Bahia, onde se formou. De começo, ofereceu-se para ensinar gratuitamente a matéria em que veio a especializar-se e ainda trabalhou de graça no hospital da instituição. Numerosos testemunhos dão conta de que este generoso clínico teve um sucesso extraordinário na profissão: segundo Antonio Vianna, ele era chamado até de “médico milagroso” e de “taumaturgo”. O Dr. Martagão Gesteira o intitulava “clínico profeta” e “quase divino”. Célebre por sua perícia, ele foi também muito festejado por sua abnegação. Chamaram-no de “médico dos pobres”, porque dedicava parte de seu tempo a tratar dos necessitados, de quem nada cobrava. Os escritos que deixou são basicamente teses e ensaios no campo da ciência médica; mas, tal como o patrono, ele também se preocupou com educação e abordou de forma crítica as reformas pedagógicas ensaiadas em sua época. Encontram-se ainda referências a seu talento musical e sua habilidade de desenhista, a que certamente associava muito bom humor, pois gostava de caricaturar-se.

Louvo o patrono e o fundador com a lembrança do que os gregos diziam: tal como os poetas e os cisnes,  também os médicos vêm de Apolo, regedor das Musas. Pode confirmá-lo nosso presidente, o escritor Aramis Ribeiro Costa, membro, também ele, do venerável clã asclepíada.

O segundo acadêmico eleito para a cadeira 27 foi Antonio Gonçalves Vianna Júnior.  Soteropolitano,  Antonio Vianna (que era como assinava seus escritos) nasceu em 1984 e faleceu na sua cidade natal em 1952. Ao contrário de seu aristocrático antecessor e do abastado patrono, provinha da classe média. Fez uma bela carreira de funcionário público, chegando a ocupar altos postos. Considerava o jornalismo, ofício em que se distinguiu, “a síntese de todas as profissões”. Suas crônicas saborosas, muitas delas reunidas no livro “Casos e coisas da Bahia”, são quasi-etnográficas: retratam vivamente costumes da terra, tradições baianas, tipos e festas populares da encantada Salvador do seu tempo. Legou-nos, por exemplo, um cálido quadro do São João desta capital, que na primeira metade do século passado pudera ainda classificar-se como “rurbana”; do mesmo modo nos retratou seu ciclo de Reis e os festejos da Conceição, entre outros eventos. Na verdade, ele veio a ser um de  nossos mais notáveis folcloristas – e ainda nos deixou uma continuadora ilustre, sua filha Hildegardes Viana, que também participou desta Academia, onde ecoa sua saudade. A meu ver, merece destaque a produção lírica do melodioso bardo que foi Antonio Vianna, inspirado por imagética e sensibilidade musical tipicamente simbolistas. Destaco seu perfeito domínio da forma soneto. Talvez o mais conhecido dos seus poemas dessa classe seja o que leva o título de Pesares e tem uma tessitura camoniana. Trata-se, a rigor, de um  pastiche tão bem realizado que vai além do pastiche, pois não lhe falta originalidade. (É o mesmo que acontece, por exemplo, com as odes horacianas de Ricardo Reis, o heterônimo epicurista de Fernando Pessoa). Parece-me, contudo, que a maior parte dos sonetos de Vianna, quiçá os melhores, evocam antes o estilo onírico, musical e caprichoso de um Cruz e Sousa. Em alguns deles se percebe o mesmo tom de erotismo sutil que enfeitiça os poemas sousianos.

A Antonio Vianna sucedeu nesta ilustre cadeira Jaime Tourinho Junqueira Aires, nascido em Salvador em 1901 e falecido na mesma cidade, em 1973. Oriundo de uma família tradicional do Recôncavo, passou a infância em Santo Amaro da Purificação. Transferindo-se bem cedo para a capital, formou-se em  Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Bahia, onde depois ocupou a cátedra de Direito Civil. Foi também Livre Docente da Faculdade de Direito da Universidade do Brasil e destacou-se por sua pedagogia brilhante. Teve uma notável carreira política: elegeu-se, por dois mandatos, deputado estadual constituinte e presidiu a Assembléia Legislativa da Bahia; nesta condição, por mais de uma vez ocupou o Governo interino do Estado. Sua obra édita compõe-se basicamente de estudos jurídicos (dois ensaios contemplando problemas de filiação) e peças de oratória, inclusive discursos pronunciados nesta Academia. Sabe-se, porém, que ele era chegado à sátira. E tinha afinidades com outras musas, mais amenas. No discurso com que o acolheu neste sodalício, Otávio Mangabeira, entre outras deliciosas indiscrições, denunciou-lhe a feitura de um belo soneto. Acusou também seu gosto secreto por serenatas e modinhas.

Ao jurista emérito e cantor episódico sucedeu-lhe Antônio Loureiro de Sousa, renomado jornalista nascido em Cachoeira no ano de 1913 e falecido em Salvador, em 1989. Na cidade de Castro Alves, ainda bem jovem, ele fundou um jornal; em Cachoeira destacou-se como redator de outro periódico; em Salvador, teve uma atuação significativa e múltipla na imprensa, em diferentes veículos: em “A Tarde”, sua seção crítica intitulada “Autores e Livros” marcou época. Sua colaboração foi constante e rica também nos periódicos “Estado da Bahia” e “O Imparcial”. Além disso, ele integrou o Conselho Estadual de Cultura, a Associação Baiana de Imprensa, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e o Instituto Histórico de São Paulo. Foi ainda Diretor do Arquivo Histórico da Prefeitura Municipal de Salvador e ocupou outros cargos importantes para a vida cultural baiana.  Tendo-se bacharelado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, nela exerceu a docência, vindo mais tarde a ensinar, também, na Escola de Biblioteconomia da mesma instituição universitária. Com seu livro “Baianos Ilustres”, Antonio Loureiro de Sousa obteve o prêmio  Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras. Escreveu ainda outras obras importantes, a exemplo dos livros em que tratou de Gregório de Matos e de Balzac. Merece destaque, também, sua erudita Notícia histórica de Cachoeira. Em 1950, o cronista da Cidade Heroica presidiu com brilho o  IV Congresso Brasileiro de Escritores.

Devo falar agora de um grande homem que esta Academia ainda pranteia: o grapiuna James Amado, erudito a quem muito deve a cultura nacional, pois ele a ilustrou como escritor brilhante, crítico de arte, tradutor perito, príncipe dos editores, dedicado ao cultivo da inteligência e da liberdade, cidadão exemplar. Nascido em Ilhéus em 1922, morreu nosso polígrafo no ano passado, aqui em  Salvador, depois de ter ocupado por vinte e três anos a cadeira 27 da Academia de Letras da Bahia. Deixou o legado de uma obra muito rica e uma lacuna impossível de preencher. Formado pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, o saudoso escritor conviveu com uma plêiade de intelectuais que o admiravam profundamente e conquistou, por seus muitos méritos, a estima do povo, o respeito dos estudiosos. Esta Casa tem muito que lhe agradecer, pois ele a enriqueceu com a extraordinária riqueza de seus escritos e também com a inclusão de um genial conviva, oriundo de nosso passado. A Academia de Letras da Bahia pode já dizer que incorpora a seu grêmio o gênio de Gregório de Matos Guerra, desde quando um dos membros de seu sodalício resgatou-lhe a obra numa edição primorosa. Assim o erudito Amado fez volver a nossa terra um dos seus maiores escritores: trouxe a nós sua poesia renovada, livre das peias da moral hipócrita que a mutilava; reintegrou-a com apuro filológico, restaurou-a com clarividência de sábio. É certamente uma graça do céu ter conosco o Boca do Inferno – e nós devemos a James Amado esta grande dádiva. Bastaria sua bela proeza de filólogo para que ele fizesse jus ao reconhecimento dos acadêmicos baianos e de todos os brasileiros. Todavia suas façanhas foram muito além. Lembremos, para começar, outro feito semelhante: recorde-se mais um dom de sua Editora Janaína, que grandes tesouros salvou do naufrágio. Como se sabe, ela fez emergir de novo a poesia de Junqueira Freire. Veem bem os amigos porque chamei o escritor a quem agora rendo homenagem de príncipe dos editores. Sequer se avaliou ainda a grandeza do trabalho realizado pelo Serviço de Informação Cultural concebido e implantado no Rio de Janeiro, na década de 1960, pelo incansável Amado, com a colaboração de Miécio Tati: uma esplêndida máquina difusora de textos sobre livros, alcançando a imprensa de todo o país. Não há como negar que estamos falando de um produtor cultural incomum, prodigioso. E que dizer do tradutor de mais de cinquenta livros que tantas obras primas literárias tornou acessíveis aos brasileiros? Poucas instituições culturais terão feito tanto quanto ele para ilustrar nosso povo. Mas bastaria para consagrá-lo sua própria obra literária. Seu romance “O chamado do mar” e seu livro de contos intitulado “A Rosa e a sentinela” conquistaram a admiração de grandes mestres da ficção no Brasil, a exemplo de Osman Lins, José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos. Sua novela “O levante do posto” foi muito esperada e louvada por quem logrou conhecê-la ainda em esboço. Em matéria de ficção, cabe dizê-lo um grande escritor que escreveu pouco; só que seu pouco supera muitos.

Pode esta Casa orgulhar-se de ter abrigado expoentes de uma família que contribuiu com fantástica riqueza para a literatura nacional. Jorge, Zélia, James, esses três de fato não nos deixaram: seguem comunicando viço e esplendor a sua Academia.

Desejo concluir este discurso com um agradecimento sincero. Premiando-me por duas vezes, esta Casa generosa acabou por fazer-me acreditar que sou mesmo escritor. A ficção que eu produzia per diletto, aproveitando os momentos de lazer, tornou-se, agora, um dos focos principais da minha atividade intelectual. A isso fui levado por seu estímulo. Como se não bastasse, Vossas Senhorias fizeram-me acadêmico. Que mais posso dizer-lhes? Só uma coisa: prezados confrades, queridas confreiras, aqui estou em lugar eminente, em alta sede colocado, um tanto perplexo. Mas a culpa é sua.

Muito obrigado.

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