CRÔNICA

CRÔNICA

Durante mais de um mês fui assíduo frequentador da Bibliothèque Nationale, em Paris. Chegava bem cedo e lá passava quase o dia todo, fazendo apenas um pequeno intervalo para o almoço, que consistia, invariavelmente, em um sanduíche e um copo de vinho. Era um dos primeiros a chegar e voltava para casa ao anoitecer. Logo reparei em um cavalheiro que também chegava cedo e lá passava a manhã inteira, mas à tarde nunca aparecia. Era um homem alto, louro, elegante, muito circunspecto, que aparentava uns trinta e cinco anos. Usava sempre terno claro, gravata, óculos com aro de metal dourado. Muitas vezes sentava-se a uma banca perto da minha. Eu me entretinha praticamente o tempo todo com a leitura de escólios e edições de fragmentos de autores antigos, obras de historiadores gregos e bizantinos, de interesse para minha tese de doutorado. Quando me ponho a ler, em geral me concentro de modo tão intenso que esqueço o mundo ao redor. Mas o cavalheiro de que falei acabou por chamar a minha atenção.
Numa ocasião em que chegamos juntos, ele foi atendido primeiro. Enquanto esperava minha vez, vi que lhe traziam vários volumes da Husserliana. Notei que ele os arrumou com diligência na prateleira de sua banca, mas não abriu nenhum. Ficou parado a olhar para as lombadas, de braços cruzados, com uma expressão meditativa.
Tão logo me trouxeram os livros que eu tinha solicitado, mergulhei na leitura e me esqueci de tudo mais. A certa altura, porém, tendo acabado de ler um longo trecho da Cronografia de Malalas, ergui os olhos e percebi que o vizinho continuava imóvel, na mesma atitude absorta, como se a visão dos volumes fechados o congelasse. Olhei para o relógio e dei-me conta de que já se tinham passado cerca de duas horas desde a nossa chegada.
Voltei à leitura, mas por duas ou três vezes olhei de relance para a banca ao lado e vi que o seu ocupante não se mexia. No que saí para almoçar, ele ainda estava lá, parado, do mesmo jeito. Na volta, já não o encontrei. Mas no dia seguinte a cena se repetiu.
Por mais de uma semana tive essa imóvel companhia.
Ninguém parecia estranhar a presença estática, a atitude incomum do estranho cavalheiro. Um misto de discrição e indiferença geral, característico da maneira francesa, protegia o elegante não-leitor de qualquer abordagem. Os bibliotecários o atendiam com a gentileza fria de sempre e nada lhe indagavam. Seu comportamento era (ou parecia ser) aceito com naturalidade por todos ao redor. Imagino que outros leitores terão ficado tão curiosos quanto eu, mas escondiam sua curiosidade — como também tratei de fazer. Afinal, estava na França.
Não é que ninguém notasse o discretíssimo extravagante. Apenas ninguém mostrava notá-lo, o que é uma maneira educada, mas decisiva, de não ver. Tacitamente, nós, simples leitores, mantínhamos invisível o companheiro que não abria os livros. De uma coisa estou certo: os frequentadores inveterados da Bibliothèque Nationale que o viram lá inúmeras vezes tanto se acostumaram a ignorá-lo que depois de algum tempo já não o enxergavam de fato.
Mas havia exceções.
Um belo dia, encetei uma conversa casual com uma moça italiana que, assim como eu, deixava a biblioteca para o lanche. Perguntei-lhe se já tinha notado Monsieur l’Invisible e ela me confirmou que sim, pois logo entendeu a quem eu me referia. Falou que ele aparecia lá desde muito e sempre se comportava do mesmo modo: sempre solicitava alguns volumes da obra de Husserl. Mas nunca lia. Pelo menos naquela biblioteca.
Mulheres geralmente são boas observadoras. A moça afirmou, com plena segurança, que o desconhecido era homem de classe alta e divorciado: notou a marca em seu anular de uma aliança em desuso e percebeu que suas roupas eram de gente rica e refinada, sem nada de snob. Ela tinha uma habilidade (que me falta por completo) para a leitura de trajes. Notou até um pequeno desarranjo estético nas gravatas do homem, coisa que a seus olhos também traduzia divórcio. Não sei como gravatas podem dizer isso, mas de acordo com a bela mulher sua ingênua discordância descartava a hipótese de viuvez.
Embora lhe atribuísse riqueza, a dama perspicaz supunha que o bem vestido era professor: a seu ver, ele tinha o physique du rôle. Quanto a isso, porém, eu a deixei um pouco insegura. Ela admitiu a possibilidade do engano quando eu lhe contei que tenho este ofício. Boquiaberta, a criatura da Itália confessou que jamais o teria adivinhado. Ficou um poucomais sossegada quando lhe revelei que sou brasileiro e ensino (ensinava) antropologia. Pensando melhor, ela então precisou: o homem que nos intrigava seria um professor francês de filosofia. Nascido rico – ela sublinhou.
O resto imaginei. Disse-lhe que certamente o camarada era especialista em Husserl e tinha encalhado em algum trecho escabroso do grande rio da fenomenologia husserliana, que tem seus meandros, alguns deles estreitos e cheios de escolhos. Às vezes até me parece que esse rio dá voltas ao redor de si mesmo, coisa impossível na geografia mas nada incomum na especulação. Segundo minha hipótese (plenamente gratuita) o suposto fenomenólogo embaraçado se exercitava recordando as dúvidas e tentando antecipar-se ao impacto da releitura com uma infindável pré-análise, um exercício preparatório de auto-interrogação destinado a afiar-lhe a inteligência antes do choque decisivo com os textos do mestre. Era uma vítima, quem sabe, do sujeito transcendental.
Como notei um brilho novo nos olhos da filha de Roma, prossegui na minha fantasiosa teoria. Acrescentei que o exercício rigoroso da proto-leitura com certeza tornou o pobre homem refratário aos textos que quisera reler. Era evidente que ele escolhia sempre os mesmos volumes, mas os mantinha fechados com severa prudência. Tinha receio, pensei, de que o livro aberto o arrancasse do pensamento cuidadosamente elaborado a fim de dominá-lo e assim, paralisando o fluxo de sua consciência com o rigor dos argumentos husserlianos (em sua mente já transformados em enigmas de uma lógica implacável) acabasse por tirar-lhe realidade. Por outras palavras, segundo minha desatinada fantasia, o infeliz imaginou que o livro do filósofo o poderia ler, a ele, mas a contrapelo de sua meditação — e assim destruir seu juízo, arrancando-o de si mesmo à força de perguntas silenciosas. Movido pelo pânico, ele decidiu, então, tornar-se ilegível, Monsieur l’Ilegible. Esperava, por certo, que nessa condição se faria capaz de conquistar o domínio do texto, apossar-se dele sem ser ferido por sua agudeza, a fim de impor-lhe a direção hermenêutica que o satisfazia; poderia, então, voltá-lo para onde queria, sem se machucar no processo. Mas nunca estava seguro de já ter ganho a desejada força, logrado a esperada imunidade; nunca se via equipado com a perícia necessária para volver a bordo dos escritos viajores de Husserl e tomar-lhes o volante, por assim dizer. Duvidava, ainda e sempre, da espécie de cabala que se empenhava em construir a fim de aplicar-lhes.
A moça acolheu minha hipótese maluca com uma fé risonha, mas perguntou porque o pobre homem teria imaginado uma coisa dessas. Admitia a possibilidade de que ele estivesse louco (como suspeitava discretamente que fosse meu caso), mas perguntava-se de que modo e porque ele teria chegado a esse ponto. Embarcando na sua suposição, sugeri que foi por causa do divórcio: a mulher dele, também filósofa, o teria abandonado em meio a uma grave discussão fenomenológica. Ele estava apaixonado, queria voltar, mas entendeu que não o conseguiria enquanto não achasse a solução do problema filosófico subjacente à disputa conjugal. Estava, porém, apegado a uma interpretação tentadora a que o texto de Husserl resistia, de modo tão tenaz quanto sua própria esposa. Queria muito entender-se com os dois, porém nunca se achava preparado para tanto. Continuava receoso, imobilizado entre medo e desejo.
A italiana gostou muito dessa conjetura. Almoçamos juntos e quando voltamos à biblioteca Monsieur l’Invisible estava de saída. A moça o mirou desafiadoramente nos olhos. Ele estacou alumbrado, cerrou as pálpebras por um instante, depois tomou coragem e fitou-a. Em seguida olhou também para mim, com ar interrogativo. Tudo isso durou poucos segundos. Por fim, o homem perplexo dirigiu-nos um breve cumprimento e foi-se embora. Parecia espantado por que nos viu, e mais ainda por constatar que bem o vimos.
Nunca mais o deparei.

Minha imaginação ainda quer convencer-me de que nós, a dama de Roma e eu — mas sobretudo ela — fomos responsáveis pelo sumiço do desleitor, pois o tornamos visível de forma brutalmente apodítica, à luz indiscreta de nossos olhos, e assim destruímos seu abrigo solipsista, a casamata onde ele se escondia do bombardeio fenomenológico. A atitude da moça foi decisiva, seu olhar claríssimo. Naquele momento (penso eu) o homem notou que o tínhamos percebido e conscientizado. Mais ainda, sentiu que o havíamos publicado em termos fenomenais: notou que nos entreolhamos com um sorriso cúmplice.
De acordo com a nova hipótese que expus à romana momentos depois do encontro decisivo, a invisibilidade pacientemente construída era a concha em que o estudioso contido carecia de manter-se pensando, por assim dizer, entre parênteses, seguro de fazer-se impensável pelos outros. Vocês hão de convir: quem fica uma manhã inteira numa biblioteca não lendo, com livros bem escolhidos diante de si, persegue a impensabilidade.
Por algum tempo mantive essa fantasia do jeito como a descrevi. Guardei-a comigo dessa forma, embora sem dar-llhe muito crédito. Mais tarde, mudei de ideia: troquei o enredo. Fiz isso ao constatar que daquele dia em diante tanto Monsieur l’Invisible quanto a dama que conversou comigo a seu respeito deixaram de frequentar a velha biblioteca. Imagino, agora, que ela era a esposa fatal e que voltou para o marido depois do encontro denunciador — encontro que ambos desejavam mas evitaram por muito tempo, mesmo sabendo-se próximos. Indícios: ela acolhia bem os desvarios (era fantasticamente italiana), tinha marca de aliança no anular da mão esquerda e um jeito gracioso, mas ferino, de filósofa.

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