16 January, 2015 10:07

OUI, JE SUIS CHARLIE

Há poucos dias postei na minha página uma mensagem bem curta. Foi uma frase só, nada original. No mundo inteiro, milhões de bocas a pronunciaram e ainda a proclamam; inúmeros cartazes a ostentaram pelo mundo afora, tablets e celulares a exibiram aos olhos das câmeras: Je suis Charlie.
Tenho repetido essa declaração com insistência. Sei que muitas vezes a vou repetir, como quem diz uma prece, faz um voto, agita uma bandeira. Não se trata apenas de uma homenagem às vítimas de um estúpido massacre, nem somente de celebração da arte luminosa, da riqueza ética, da soberba coragem de Charb, Cabu, Tignous, Wolinski, Honoré, Elsa Cayat e companhia. Trata-se de uma tomada de posição. Quero por-me ao lado da turma invencível do Charlie Hebdo. Emocionou-me o espetáculo da multidão que encheu as ruas de inúmeras cidades da França a fim de honrar a memória dos bravos cartunistas. Essa bela manifestação foi sinal de uma atitude resoluta, de uma decisão muito firme de resistência à barbárie. Gostei de ver a digna cerimônia repetida em várias metrópoles do mundo. Alegrou-me a notícia de que a chamada “edição dos sobreviventes” do jornal ferido, com uma tiragem de três milhões de exemplares, se esgotou de forma instantânea — e a tiragem suplementar de dois milhões teve o mesmo destino.
Charlie não se extinguiu. Está bem vivo. É uma semente de esperança, um baluarte da liberdade que resiste aos ataques do obscurantismo, do crime e da insânia.
Foi notável a presença, na grande manifestação de Paris, de governantes de muitos países, além da elite política francesa e de lideranças de instituições influentes em todo o mundo. Mas quanto às homenagens que prestaram aos jornalistas assassinados os poderosos da terra, a meu ver ninguém se exprimiu melhor que Patrick Besson, em um número da revista Le Point (de 15 de janeiro último), inteiramente dedicado ao trágico assassinato dos bravos jornalistas. Traduzo aqui um pequeno trecho desse editorial que não chega a ocupar uma página:

“Aí estão eles [os cartunistas do Charlie] transformados em heróis da nação; justo eles que cagavam para a ideia de ‘herói’ e tinham náuseas quando lhes falavam em nação. Agora lhes prestam homenagem dirigentes políticos burgueses que eles insultaram cem vezes no Charlie: o horroroso Obama, o indigno Cameron, a grotesca Merkel, o absurdo Hollande. O Vaticano, que eles não se cansaram de descrever como bordel da pedofilia, os eleva a mártires. O rádio, de que eles zombavam; a televisão, que eles abominavam; a imprensa, que eles desprezavam, mobilizaram-se para homenageá-los. Esses cospe-fogo foram colocados em um pedestal por todas as baratas de sacristia. As mais altas autoridades do Estado — desse mesmo Estado que era seu inimigo de todos os dias — ora lhes dedicam um dia de luto nacional. Eles devem estar rindo muito no paraiso dos esculachadores ao ver hasteada a meio pau, em sua honra, a bandeira francesa, bandeira que em suas cabeças há muito já estava a meio pau. Sua morte abominável transformou esses demolidores em guardiões do templo republicano. Semana após semana eles se batiam contra as instituições de que agora são figuras de proa. Como muitas vezes escrevi e comprovei, Deus é humor, e é por isso que o humor é sagrado, talvez a única coisa realmente sagrada.”

Nesse número precioso de Le Point a revista colheu depoimentos de muitos dos mais importantes intelectuais da França e do mundo inteiro: perto de cinquenta personalidades do porte de Salman Rushdie, Michel Onfray, Kamel Daoud, Wole Soyinka, André Glucksmann, Jean Delumeau, Olivier Roy etc. A meu ver, nesse conjunto tão rico o curto texto de Besson merece destaque. Ele mostra bem o valor dos jornalistas covardemente assassinados e a importância dos sátiros em geral. Sem gente capaz de zombar das pretensões da elite pomposa, de governos, igrejas etc., ficamos perdidos no mundo, entregues à hipocrisia, à prepotência, ao crime.
Ao dar o nome de sátiros ao pessoal do Charlie e seus congêneres, evoco muito de propósito a indispensável santidade do riso demolidor. Recorde-se: para os antigos helenos os sátiros eram figuras sagradas. A inteligência religiosa não exclui o humor, a gozação, nem mesmo o deboche. A comédia nasceu no culto de Dioniso e não deixava de zombar dele, assim como de todos os deuses. A religião apodrece quando rejeita o riso. Quando chega a esse ponto, ela não pode mais ser respeitada. Perdeu a inteligência.
Os assassinos que liquidaram uma lúcida equipe do Charlie usaram a fé islâmica como pretexto para extravasar seu ímpeto sanguinário. Chegaram a esse grau de bestialidade por puro ressentimento — provocado, é verdade, por uma odiosa discriminação racista. Ainda por cima, foram objeto de uma lavagem cerebral que os levou ao crime. Os autores da perversa “doutrinação” sofrida por esses jovens desesperados são apenas bandidos travestidos de mestres, sacerdotes do terror e da covardia, gente muito parecida com os fundamentalistas cristãos, com os torturadores de Guantánamo, com os fascistas encastelados no estado de Israel et caterva. Não são de modo algum islâmicos nem eles nem os jovens marginais que manipulam, assim como bushes e le pens nada têm de cristãos e netanyahus, por mais que o aleguem, coisa nenhuma têm a ver religião dos profetas judeus, com a civilização israelita. Por mais que conflitem, os fundamentalistas de diferentes credos são todos da mesma casta. Charlie está vivo e seguirá combatendo essa praga imunda.

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