“Da má fé transparente”- Artigo

 

Quero comentar nesta crônica um cacoete ridículo, mas muito generalizado em certo meio. Trata-se de um hábito de “otoridades” de presença pouco edificante no cenário da vida pública. Aposto que o leitor já testemunhou o espetáculo: acontece a toda hora. Quando um político de fancaria quer desqualificar uma atitude, um movimento, uma proposta ou uma tese de uma organização social, um ato da sociedade civil que o desagrada, lança o anátema: “Isso é político”. Entende que assim avacalha, torna indigno e reduz a pó qualquer posicionamento, desmoraliza a colocação que lhe é feita, torna improcedente a reivindicação ou reclamação. Vocifera a sentença em tom de anátema, como um censor escandalizado com a impureza que denuncia. “É político” equivale, na rigorosa sentença, a “é ilegítimo e desprezível.” Ou coisa pior.

 

O que mais me espanta é a patente estupidez do procedimento. Quem assim age não percebe que se deprecia, não vê que se avacalha, não nota que condena sua própria atividade, desfaz de seu ofício, enlameia a própria classe, difama a categoria a que pertence. Além da má fé bem visível no rabisco sumário de um pretexto bisonho de rejeição ao diálogo, há nessa fórmula uma involuntária sinceridade: a indesejada franqueza que caracteriza os atos falhos. O autor de semelhante declaração assim torna manifesto o que pensa de si mesmo e de sua prática. Com ironia inconsciente se condena por sua própria boca. A verdade escorrega no lapso, pisando a língua mentirosa. A consciência anestesiada nem se dá conta.

 

No tocante ao sujeito que assim se exprime, ou seja, na medida em que lhe corresponde o julgamento embutido em sua declaração, torna-se forçoso concordar com o desabono — mas sob a condição de restringi-lo a ele só. O problema está em que esse discurso generaliza. E ao generalizar torna-se profundamente injusto. Pois nem todo político é indigno.

 

Quando usa o nome que o qualifica como pecha infamante, o desavisado encontra eco, uma ressonância cujo efeito contribui para sua desmoralização. Ele assim acolhe beatamente, mas de maneira perversa, um estigma apenas injusto na medida em que o estende a outros.

 

Com efeito, no Brasil, no presente momento, a maioria do povo tende a achar que o nome de “político” por si só desqualifica: várias pesquisas têm mostrado à exaustão que a classe assim rotulada anda muito malvista. São inúmeros os que a julgam coberta de infâmia e totalmente indigna de respeito. Os escândalos de corrupção, o fisiologismo escancarado, a corrosão sistemática dos partidos, a constante presença de titulares de cargos eletivos e seus prepostos nas páginas policiais, as notícias de intermináveis maracutaias e o próprio discurso falacioso de muitos dos homens públicos sem dúvida contribuem para isso. Em conversas com populares, tenho notado que o desprezo por essa grei só faz crescer.

 

De fato, ninguém negará que a classe em tela anda muito desmoralizada. A conduta desavergonhada de muitos acaba por manchar a todos. Mas repito que essa atitude resulta em injustiça. A generalização não tem cabimento. Mesmo no Brasil, há políticos honestos, sérios e dignos. Eles são encontráveis em diferentes partidos, não constituem privilégio de nenhum. Tudo indica, porém, que de um modo geral esses homens honrados são minoria em suas agremiações. Elas não raro tolhem suas iniciativas, dando maior espaço a figuras mesquinhas, hábeis em escusos jogos de poder. No entanto, até nesse meio existem pessoas decentes, que pensam e fazem política com dignidade.

 

Quando digo isso, muita gente balança a cabeça com incredulidade e me chama de ingênuo. Mas insisto: tal como a profunda degradação da maioria dos políticos, a rejeição pura e simples de toda a categoria vem a ser coisa muito perigosa. Favorece apenas os mais safados. Dá-se coisa pior: essa aversão logo degenera em indiferença plena para com a prática política, induzindo o afastamento dos cidadãos decentes de um incontornável domínio da vida social. Ora, o resultado de dar às costas à política é sujeitar-se a ser governado por quem não tem escrúpulos. Quem se quer apolítico entrega o controle de sua vida a outrém, em geral a charlatães. Um dos fatores da degeneração da política vem a ser a apatia de cidadãos que se limitam ao voto (mesmo assim porque é obrigatório) e descuidam do controle social da gestão da máquina pública.

 

Faço política o tempo todo, desde que tomei consciência de minha cidadania. Mas nunca me envolvi com partidos. Não tenho vocação para isso. Quase digo: não tenho estômago para isso. Estou longe, porém de condenar todos os que se dedicam à atividade político-partidária. Estou longe de achar que ela é dispensável. Ainda não encontramos meio de dispensar partidos em uma democracia. Todavia me recuso a admitir que só nesse âmbito se faz política. Há muitos espaços em que se pode tratar de liberdade e justiça, onde é possível e necessária a afirmação de direitos, a defesa de interesses coletivos. Sou ligado a organizações e movimentos da sociedade civil que se empenham no combate à desigualdade e à intolerância, na luta contra o racismo, na busca de melhores condições de vida no meio urbano. Esses movimentos e entidades de que participo são apartidários. A meu ver, instituições do gênero não funcionam bem quando se deixam atrelar a partidos. Sua independência lhes dá mais força e lhes confere maior autoridade, capacitando-as para o exercício do controle social da governança pública.

 

Não é possível democracia sem participação cidadã. Torná-la cada vez mais ampla e vigorosa é absolutamente indispensável para superar a crise política que hoje se verifica em todo o mundo. É o incremento da participação que corrige o desvio da representação.

 

Não há como ocultar a gravidade da doença política que aflige o globo. No Brasil, em particular, a severa crise de representação se tornou aguda. Vimos o Congresso Nacional empenhado em uma pseudo-reforma que de fato só teve como objetivo manter o sistema viciado. Continuamos com uma proliferação cancerosa de partidos que a rigor não têm programa e incidem nas mesmas práticas, com prioridades idênticas: chegar ao poder e manter-se nele (ou parasita-lo), tirando disso o máximo proveito. O dinheiro governa: basta que se leve em conta o alto custo da eleição de um “representante do povo”, as formas e as fontes de financiamento de campanha e seu modo de “retribuição”. Temos de fato uma plutocracia, em perigo de tornar-se cleptocracia, em vez de um regime democrático efetivo. Sair desta situação só será possível, repito, com o incremento da organização da sociedade civil e com o empenho de todos os cidadãos em assumir-se republicanos, entendendendo que a “coisa pública” lhes compete, não constitui domínio de uma categoria, não é matéria de ocupação exclusiva de políticos profissionais.

 

Mas volto agora ao cacoete politiqueiro que examinava. Para entender bem o sentido desse procedimento, é preciso entrar no domínio do que os linguistas chamam de pragmática. Ou seja, é preciso que se examine o campo da interlocução, considerando a quem se dirigem os bisonhos usuários da fórmula “Isso é político” ao empregá-la de maneira despectiva, em tom de xingamento.

 

Claro está que eles nunca falam assim quando se dirigem a seus correligionários, ou a seus apoiadores, e tratam de suas demandas. Disso consideram inocente, por princípio, seu séquito de brown noses. Tampouco empregam a curiosa expressão quando discutem (ou negociam) com membros de partidos adversários. É que então até mesmo cérebros acanhados percebem que seria ridículo o emprego da fórmula, nesse caso de efeito boomerang imediato. Ela só é dirigida a um tipo de interlocutor: ao cidadão independente ou ligado a alguma organização da sociedade civil que toma posição contrária à da autoridadezinha indisposta a aceitar-lhe a manifestação. Trata-se justamente de sugerir — Oh, horror! — que o atrevido contestador está ligado a um partido de oposição — como se isso lhe tirasse o direito de posicionar-se em qualquer matéria relativa à cidadania. Pouco importa, aliás, se o pressuposto tem algum fundamento. De preferência, a “acusação” se enuncia quando não tem base alguma na realidade. O objetivo é pura e simplesmente negar ao interlocutor o direito de manifestar-se, negar-lhe a cidadania. Pois para esse tipo de “político”, quem pensa diferente não é cidadão — título que reserva a suas vacas de presepe. Revela-se assim o verdadeiro horror à democracia que inspira as “otoridades” acostumadas a valer-se desse recurso tão escuso quanto estúpido, de transparente má fé.

 

O difícil é saber o que mais espanta, no caso: a falta de inteligência ou a falta de caráter. As duas coisas parecem, então, misturadas de forma inextricável.

 

E repugnante.

 

 

 

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