Dona Ester do Rio de Contas e seu Guia Lírico

288530_10150251223311078_348278_oEster Trindade Serra nasceu no dia 2 de junho de 1913, em Rio de Contas, e faleceu em 31 de agosto de 1987, em Brumado, Bahia. Filha de José Rodrigues Trindade e Elvira Trindade, casou-se com o cachoeirano Pedro Serra, de quem teve seis filhos. Dona Ester, como a conheciam seus inúmeros amigos, era uma mulher dinâmica, enérgica, dotada de múltiplos talentos. Não chegou a cursar mais que dois anos do ensino fundamental, mas tornou-se conhecida pela riqueza de seus conhecimentos, sua oratória brilhante, a facilidade com que discorria sobre variados assuntos. Em Brumado ajudou a fundar um colégio, de que foi secretária; foi também vereadora e presidente da Câmara dos edis, além de bibliotecária naquela cidade. Em toda a região, era difícil encontrar quem conhecesse mais de livros do que ela. Mas seus cuidados iam muito além. Como parteira, ela assistiu a muitas mulheres, na maioria pobres, que em geral pagavam seus serviços com presentes humildes e grande carinho. Era uma artista reconhecida no mundo sertanejo onde viveu: suas telas ainda embelezam casas de parentes e amigos na Chapada Diamantina e arredores. Ela não se cansou de retratar o casario bizarro, as festas, os folguedos, os ritos do povo do sertão baiano. Era capaz de improvisar um soneto, com métrica e rima perfeitas, enquanto pintava um quadro. Mas também manejava com perícia o verso livre e melodioso com que celebrou sua terra. E teve palavras ardentes para defendê-la contra o vandalismo, em palestras, discursos, documentos. Em 1966, ela dirigiu ao Diretor do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional uma carta tocante:

“No sentido de impedir que se cometa um verdadeiro crime contra a arte e a cultura, venho cumprir um dever de civismo, para mim de consciência, denunciando a Vossa Excelência que a Câmara de Vereadores de Rio de Contas, minha terra natal, aprovou um projeto para lotear o Largo de Nossa Senhora do Rosário, praça antiga de beleza extraordinária que caracteriza o ciclo do ouro (…) Pudesse oportunamente Vossa Excelência, zeloso que é do Patrimônio Histórico Nacional, ver de perto a Cidade de Rio de Contas e teria empenho de tombá-la, preservando assim um verdadeiro tesouro artístico e cultural… É preciso impedir que aquele chão sagrado, impregnado da história da velha cidade, seja loteado, mormente quando há vastas áreas por onde a cidade pode se expandir, inclusive a Avenida Souto Soares, que foi traçada há mais de três anos e não há, nos lotes demarcados, nem uma só residência! Os interesseiros e inescrupulosos que apelidam a tradição de ‘atraso’ preferem lotear e mutilar uma praça histórica e antiga.”

Rodrigo de Melo Franco respondeu a esta carta com o ofício de número 406 da Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, dizendo que tinha telegrafado ao Chefe do Segundo Distrito da DPHAN, a quem recomendou procurar entendimento com as autoridades municipais de Rio de Contas para as necessárias diligências. O poeta Godofredo Filho, que ocupava esse posto, não demorou a fazê-lo: de imediato oficiou ao Prefeito e ao Presidente da Câmara de Vereadores riocontense fazendo um apelo que prontamente surtiu efeito. Nessa altura, Dona Ester já tinha mobilizado vários conterrâneos ilustres em sua campanha cívica. (Um abaixo-assinado testemunha essa mobilização). O Largo do Rosário foi preservado. E O Centro Histórico de Rio de Contas por fim veio a ser tombado, reconhecido como um dos três conjuntos coloniais mais importantes da Bahia. Ester Trindade Serra (que também quis chamar-se Ester Rio de Contas Trindade Serra) continua a velar pela beleza de sua cidade. Com a poesia do Guia Lírico que lhe presenteou.

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