RAPSÓDIA AZUL

Já esqueci a mulher que eu amava.

O seu nome, da boca e dos ouvidos

me perdeu os sentidos:

apagou-se

a chama que a chamava.

Por fim, não lembro nada

de minha namorada.

Já se acabou em mim sua beleza.

Fiquei nu de seu corpo.

Morri sua natureza.

Ignoro se ela existe,

se o ser a conheceu,

se saiu do presente

ou se a nós dois também sobreviveu.

Sim, olvidei a que me cativou

e já não sei de mim como a queria

  • mas, despropositado, o amor ficou

depois de tudo

cego de razão

e nunca me abandona:

com um sorriso que aperta o coração

a me doer o mundo,

atira-me na lama, e se lamenta

de mentira comigo.

É um mágico inimigo

que a ferir-se me atinge:

sofre tudo que finge

o santo vagabundo.

Eu xingo esse infeliz

maldigo o excomungado

que me espanta e me faz

chorar desesperado

Mas depois o consolo

com medo de o perder

quando vejo que foge

o divino pirata

e lhe invento razões

para me enlouquecer.

Um dia, ele me mata.

 

 

Nota: Escrevi este poema muito tempo atrás, em minha remota juventude. No milênio passado, evidentemente. Acho que tem um quê de bolero, ou de tango, de sinceridade fingida. Não me reconheço no estilo. Tampouco sei explicar porque a rapsódia é azul. Quase nada conservo do que escrevi naquela época. Da maioria dos textos nem me lembro. Mas guardei, não sei por que, a recordação da esquecida.

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Um comentário sobre “RAPSÓDIA AZUL

  1. Prezado amigo, lendo seu comentário, uma espécie de confissão, logo após o belo poema, lembrei-me da obra de Michel Maffesoli, No fundo das aparências, no qual ele afirma “o eu… é apenas uma ilusão, ou antes é uma busca um pouco iniciática, não é nunca dado, definitivamente, mas conta-se progressivamente, sem que haja, para ser exato, unidade de suas diversas expressões…” (p. 303). O autor cita a escritora Marguerite Yourcenar que, tratando de sua própria identidade, falou a respeito de um eu “incerto e flutuante, entidade cuja existência ela mesma contestou”. Tal é essa sua flutuação que ela afirma não se sentir, “realmente, delimitada senão por algumas obras que (lhe) aconteceu escrever”. (id.)

    Outro conceito que me pareceu interessante em relação à nossa identidade é o de que todos os homens precisam de referências para se identificar, e, prossegue “a ficção é uma necessidade cotidiana. Cada um, para existir, conta-se uma história” (id.).
    A identidade é dada como um processo múltiplo, ao longo do qual vamos construindo nossa visão de mundo, a qual não é totalmente “própria”, por depender dos contextos em que aprendemos a dar significado à realidade e anós mesmos e “o eu só é um frágil construção, ele não tem substância própria, mas se produz através das situações e das experiências que o moldam num perpétuo jogo de esconde-esconde”(p. 304). Essa a visão do autor, com base na dialética que aprendemos desde Heráclito. A visão parmenídea, porém, que ele também expõe na obra, pretende ter uma visão dogmática do eu.
    Com meu abraço.

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