RAPSÓDIA AZUL

Já esqueci a mulher que eu amava.

O seu nome, da boca e dos ouvidos

me perdeu os sentidos:

apagou-se

a chama que a chamava.

Por fim, não lembro nada

de minha namorada.

Já se acabou em mim sua beleza.

Fiquei nu de seu corpo.

Morri sua natureza.

Ignoro se ela existe,

se o ser a conheceu,

se saiu do presente

ou se a nós dois também sobreviveu.

Sim, olvidei a que me cativou

e já não sei de mim como a queria

  • mas, despropositado, o amor ficou

depois de tudo

cego de razão

e nunca me abandona:

com um sorriso que aperta o coração

a me doer o mundo,

atira-me na lama, e se lamenta

de mentira comigo.

É um mágico inimigo

que a ferir-se me atinge:

sofre tudo que finge

o santo vagabundo.

Eu xingo esse infeliz

maldigo o excomungado

que me espanta e me faz

chorar desesperado

Mas depois o consolo

com medo de o perder

quando vejo que foge

o divino pirata

e lhe invento razões

para me enlouquecer.

Um dia, ele me mata.

 

 

Nota: Escrevi este poema muito tempo atrás, em minha remota juventude. No milênio passado, evidentemente. Acho que tem um quê de bolero, ou de tango, de sinceridade fingida. Não me reconheço no estilo. Tampouco sei explicar porque a rapsódia é azul. Quase nada conservo do que escrevi naquela época. Da maioria dos textos nem me lembro. Mas guardei, não sei por que, a recordação da esquecida.

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Notícia breve

Estou preocupado com a pouca movimentação que tenho feito neste meu site nos últimos meses. Mas prometo que ele vai ser “agitado” em breve com muitas novidades. Justifico a aparente calmaria: tenho tido múltiplas atividades, não só como professor e pesquisador, mas também como escritor e ainda como cidadão empenhado em movimentos sociais, particularmente na luta contra o racismo e a devastação ambiental do meu país. Aproveito um intervalo para dar notícias de minha produção. Recentemente enviei ao prelo dois livros de que prometo em breve dar aqui notícia mais detalhada. Um deles recebeu o título de Navegações da cabeça cortada. O título um tanto extravagante faz alusão a Orfeu, personagem tema de um dos ensaios e presença velada em quase todo o livro, todo ele voltado para o campo dos chamados “estudos clássicos”. A outra obra que encaminhei à Editora da Universidade Federal da Bahia chama-se “Os olhos negros do Brasil” e encerra estudos sobre os afro-brasileiros, suas criações culturais e sua condição social. Alguns desses ensaios já apareceram editados em revistas, ou mesmo em livro, com uma outra forma; renascem ampliados, modificados, transformados no novo contexto. Com isso pretendo, entre outras coisas, atender a uma demanda: quero atender aos leitores que se queixam da dificuldade de encontrar os estudos em questão. Mas juntei a esses “renascidos” outros ensaios, de lavra recente. O livro sairá com a dedicatória a um grande amigo recém-falecido, que aproveito para homenagear aqui: Abdias do Nascimento. A homenagem vai também para sua mulher Elisa Larkin Nascimento, também ela uma pessoa extraordinária. Na dedicatória, falo da amizade que travamos “no caminho de Zumbi”. A este respeito pretendo mais tarde escrever neste blog. Por enquanto, a saudade ainda me turva os olhos.

Estou revendo um novo livro de contos. Prometo também notícia dele para breve. Também não demorarei a escrever aqui sobre as pesquisas que desenvolvo, sobre a situação atual da Bahia de Todos os Santos (como participante de uma equipe que envolve quase todos os membros do Grupo de Pesquisas “Encruzilhada dos Saberes”) e sobre a violência sofrida de modo quase rotineiro nestes últimos tempos pelo povo do candomblé em Salvador e em todo o território baiano.

Estou prestes a me aposentar como professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia. Vou então dedicar-me com maior empenho a meu trabalho de escritor e tradutor. Mas ainda antes pretendo concluir minha tradução dos Hinos Órficos, que deverá sair pela Editora Odysseus, de São Paulo.

Paro por aqui. Mas muito em breve encaminharei outras novidades.

“O intelectual de Xangô”, Reportagem

Leiam no Caderno 2 do jornal A Tarde (versão impressa ou digital, disponível apenas para assinantes) de 27/12/2010 reportagem sobre e entrevista com Ordep Serra.

Trechos:

” Ordep Serra é muito conhecido como um dos melhores antropólogos da Bahia. Tive uma grata surpresa quando abri o envelope este ano e vi seu nome mais uma vez como vencedordo maior prêmio de literatura do Estado”. As breves credenciais de Ordep Serra, 67 anos, escritor bicampeão (2008-2010) do Prêmio Nacional de Literatura da Academia de Letras da Bahia (ALB)/Braskem, são do professor e diretor geral de A TARDE, Edivaldo M. Boaventura, presidente da ALB.
Ronda: Oratório Malungo (Ficções de Olufihan) é o títuloda obra de Ordep considerada, no último dia 7 de dezembro, a melhor ficção afro-brasileira inscrita no concurso deste ano.

[…]  Ordep considera Ronda uma ficção mais afro-baiana do que afro-brasileira.

“Ronda é um livro tipicamente afro-baiano, o dialeto é o do Recôncavo. Modificado, claro, porque quando a gente escreve uma obra literária a gente muda, tempera a linguagem com outras coisas”.

Bicampeonato

Ordep Serra venceu o Prêmio ALB/Braskem pela primeira vez em 2008 com o livro de contos Sete Portas, também ambientado em Cachoeira.

“Sete Portas é um livro maduro, inventivo no trabalho com a linguagem e muito humano, aspecto que considero mais marcante”, avalia o escritor Carlos Ribeiro, membro da Academia de Letras da Bahia, para quem o bicampeonato de Ordep não foi surpresa.

“Ele trabalha os elementos da cultura do Recôncavo com mão firme de escritor, de maneira inventiva e muito humor”, comenta Ribeiro sobre Ordep.

Outro acadêmico da ALB que exalta a literatura de Ordep é Ruy Espinheira.“ Os trabalhos dele mostram não só talento, mas inteligência e erudição”.