LEMBRANÇAS DE BRASÍLIA , parte 1

LEMBRANÇAS DE BRASÍLIA

EXCERTO DE UM MEMORIAL ACADÊMICO

 

Graduei-me na Universidade de Brasília, onde obtive, em 1967,  o diploma de Bacharel em Letras. Desde o início do curso, estive ligado  ao Centro de Estudos Clássicos da UNB, atuando sob a orientação do Professor Eudoro de Sousa, com uma bolsa de estudos da instituição. Já no meu terceiro semestre letivo tornei-me Monitor I e no seguinte passei a Monitor II, com o encargo de apoiar o docente nas aulas de Língua Grega. Concluído o curso, ingressei no Mestrado em Línguas e Culturas Clássicas oferecido pelo CEC, tendo Eudoro de Sousa como orientador. Passei, então, a Instrutor I e logo a Instrutor II. Tornado Instrutor, lecionei língua grega com regularidade a alunos dos cursos de Letras e Ciências Humanas (sobretudo), mas também a colegas do próprio Mestrado de que eu participava: foram meus alunos Fernando Bastos e Emanuel Araújo  que estavam, na época, concluindo suas Dissertações. Eles fizeram carreira na própria UNB, o primeiro, um filósofo, como professor de estética, o segundo (um egiptólgo) ensinando História Antiga.  Posso dizer que iniciei minha carreira de Professor Universitário na UnB.

 

Eudoro orientou-me desde o meu ingresso na Universidade. Se me indagassem, ainda na graduação, o que eu fazia na UNB, eu responderia simplesmente: “Estudo no Centro de Estudos Clássicos com o professor Eudoro de Sousa”. Isto não significa que lá fiquei isolado, sem contato com outros núcleos e unidades da instituição. Se o fizesse, estaria contrariando meu orientador e o espírito  do Centro que ele concebeu. Tive ricos diálogos com muitos professores e colegas, não só do Instituto de Letras como também de outras áreas, entre eles pessoas ilustres como o arquiteto Alcides da Rocha Miranda  por exemplo. A UNB, quando lá cheguei, tinha um desenho que propiciava esses encontros. E o CEC vinha a ser, efetivamente, um núcleo interdisciplinar, com estudiosos que transitavam por diferentes espaços acadêmicos. Seu Coordenador deu aulas sobre a Matemática dos helenos e sobre História da Ciência Antiga a estudantes de  Exatas; o professor João Evangelista, ligado ao CEC, ensinava no Instituto Central de Artes, onde também atuou Fernando Bastos; na área de Humanas, além do próprio Eudoro, atuou o professor Emanuel de Oliveira Araújo. Dei aulas à maior turma de língua grega que se formou na UNB, já nos últimos tempos do CEC: uma turma de estudantes de Ciências da Saúde, interessados em entender melhor o vocabulário médico.

 

O CEC era frequentado por professores e estudantes de diversos cursos. Do  Instituto de Letras lhe vinha a principal demanda (por cursos de Língua e Literatura Grega, Latim e Literatura Latina, principalmente). Mas Eudoro procurou montar uma equipe que atuasse também em outros campos.  A isso o inclinavam seu espírito aberto e seu interesse por diferentes ramos do conhecimento —  interesse que convivia muito bem com sua dedicação aos estudos clássicos, entendidos com a amplitude característica da concepção de Classische Altertumswissenschaft haurida na vertente germânica de sua formação. Durante toda a sua vida, ele manteve um gosto bem cultivado pela matemática e pela  física, principalmente  pela astrofísica. (Chegou a construir, junto com outros aficionados, um pequeno observatório astronômico no campus da UNB). Acima de tudo, porém, ele foi um notável helenista: um estudioso do mundo grego, com forte vocação filosófica, um profundo sentimento da história. Ele entendia que o estudo das culturas clássicas devia manter forte conexão com as pesquisas sobre as outras civilizações mediterrâneas, levar em conta as complexas redes de relações entre as sociedades e modos de vida que floresceram naquela grande bacia. Devo-lhe meu interesse pela História Antiga. Eudoro também despertou em mim um duradouro encantamento pelas civilizações mesopotâmicas, pelas criações sumério-acadianas. Graças a seu ensinamento, pude, mais tarde, desfrutar melhor das lições do grande assiriólogo Jean Bottéro, em um breve curso na USP e nas conversas que mantive com este sábio em Paris.  Pouco depois de ter deixado a UNB, escrevi um livrinho com um pequeno estudo sobre a Epopeia de Gilgamesh e uma paráfrase da mesma baseada nas traduções de Speiser e Schott. Publicado pela Fundação Cultual do Estado da Bahia, o livrinho teve uma única edição, que se esgotou rapidamente. Em 2012, no meu livro Navegações da Cabeça Cortada, inclui um capítulo que retoma o velho estudo, bem modificado.

 

Com Eudoro de Sousa tive aulas sobre Arqueologia do Egeu e do Mediterrâneo Oriental. Ainda me recordo de suas lições sobre o processo da interpretação arqueológica. Foi ele quem primeiro motivou minha aproximação com esse vasto campo. Ele era também um especialista em Aristóteles, um grande estudioso da obra de Platão e dos  pensadores inaugurais da filosofia grega. Hoje, é lembrado também como filósofo: há estudos, teses e livros a respeito de sua obra, ensaios nela inspirados. Um dos grandes focos de sua reflexão veio a ser o tema candente das relações entre mito e filosofia. Introduzindo-me ao estudo das sociedades antigas, suscitando meu interesse pela História, pela Arqueologia, pelo estudo de culturas, por mitos e tradições cognitivas, Eudoro, ainda que indiretamente, acabou por me encaminhar, também, para a Antropologia.  Posso dizer que lhe devo minha formação intelectual.  Em meu livro Antropologia infernal, evoco um seu famoso curso sobre as catábases, curso no qual ele abordou importantes documentos literários do mundo antigo, começando por mitos sumérios e avançando até Virgílio. No meu livro, tratei de catábases “modernas”.

 

Nos seminários que Eudoro organizava  no CEC  não eram discutidos apenas os clássicos gregos e romanos. Também eram debatidos grandes autores que refletiram sobre a Antiguidade ou fizeram iluminar-se algum aspecto da Paideia clássica, do thesaurus da civilização greco-romana: filósofos da cepa de Hegel, Schelling, Nietzsche, Heidegger e também poetas como Dante Alighieri, Hoelderlin e Fernando Pessoa, por exemplo, ou historiadores como Collingwood. Esses seminários também serviam a seu promotor para aprofundar as reflexões que ele desenvolvia na construção de seu próprio pensamento filosófico, fruto de longa maturação. (Na Alemanha, ele privou da amizade de  Karl Jaspers e assistiu a seminários de Heidegger, o pensador contemporâneo que mais o marcou. No Brasil, no período em que viveu na capital paulista, integrou o chamado “Grupo de São Paulo”, que se reunia em torno da revista Diálogo e do Instituto Brasileiro de Filosofia, sob a liderança de Vicente Ferreira da Silva, o autor brasileiro que mais o influenciou). Por conta disso, no Centro de Estudos Clássicos da UNB era bem cultivada a reflexão filosófica. Eudoro teve entre seus orientandos José Xavier Carneiro – que fez uma  dissertação sobre Apolônio de Rodes – e Fernando Bastos,  que dissertou sobre a teogonia de Ferécides de Siro.

 

Beneficiei-me também de ensinamentos de Agostinho da Silva, como Eudoro nascido em Portugal e naturalizado brasileiro. Ele chegou a dirigir o CEC por um curto período, em que o Professor Eudoro esteve afastado  da função de Coordenador por problemas de saúde. Agostinho da Silva tornou-se mais conhecido por suas obras sobre a literatura e a cultura portuguesa, mas atuou em muitos outros campos: entre outras coisas, foi o fundador  do Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA. Esse versátil polígrafo era um notável latinista, como atestam suas magníficas traduções de Virgílio, Plauto, Terêncio. Assim como Eudoro de Sousa, participou da fundação da Universidade Federal de Santa Catarina e fez parte do “Grupo de São Paulo”. Na UnB, ele fundou o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, onde assisti alguns de seus seminários.

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Dois estudos afro-brasileiros

Encerra dois ensaios : “A umbanda em Brasília: Uma notícia etnográfica”. Trata-se do primeiro estudo antropológico publicado sobre a umbanda candanga. O outro ensaio, intitulado “A palavra e sua imagem”, também tem a marca do pioneirismo: vem a ser o primeiro estudo publicado sobre a chamada “língua angola”, variedade lingüística em uso nos terreiros de candomblé do rito angola, caracterizável como um diatipo de uso religioso.
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