AGONIA DO CARNAVAL BAIANO

(Foto: capa da edicão de 11.03.2011 do Jornal da Metrópole)

Já se tornou uma verdade nua e crua, incontornável, um fato cuja constatação se impõe até aos mais obtusos, a profunda crise do carnaval baiano — crise que agora toma jeito de agonia violenta, suja, com espasmos brutais. Não há como confundir com vitalidade esses estertores do gigante drogado.  O buraco é mais embaixo e não dá para esconder.

Para começo de conversa, o carnaval de Salvador já não é de Salvador. De acordo com as estatísticas, apenas 22% dos soteropolitanos participam dele. Mas de modo desigual, é preciso que se diga. Pois muitos participam da grande festa sem festejar, ou seja, trabalhando em condições mais que precárias: uns, na condição servil de “cordeiros”; outros a espremerem-se pelas ruas, vendendo cerveja e petiscos miúdos, enfeites etc.; ou ainda catando latas dia e noite. A miséria dos “cordeiros” é explorada de forma obscena e a triste instituição do bloco de cordas se mantém ano após ano, com o beneplácito das nossas autoridades, decerto empenhadas em honrar as tradições escravistas da Bahia. Os amos do bloco até alegam que com isso oferecem uma oportunidade de ganho a pessoas necessitadas. É verdade que elas o são: a espantosa pobreza de Salvador, fruto de desgoverno e insensibilidade social, recruta facilmente homens e mulheres para esse tipo de trabalho. É ela também que leva famílias inteiras a dormir na rua durante a bela festa, sacrificando-se para obter um pequeno aumento de suas rendas com um inseguro comércio. Para isto fazem vigília, no tumulto carnavalesco; dormem pelas manhãs na promiscuidade e na sujeira, nas calçadas ou nos escassos gramados, entre bêbados e lixo.  Ou em barraquinhas improvisadas, que tomam calçadas e bloqueiam a entrada de inúmeros prédios na Barra, por exemplo.

Não vamos negar que o carnaval baiano distribui renda. Ele o faz de diversas formas. Ladrões e narcotraficantes também têm sua chance. Mas o grande lucro fica com poucos.

Claro, há o turismo que enche os hotéis; há os promoters, donos de blocos e de camarotes, as cervejarias e seus propagandistas. Os trabalhadores qualificados do carnaval têm seu ganho, muito suado… quando não levam calote, como acontece frequentemente com músicos contratados pelo município, cujas queixas ecoam por meses na imprensa. Também os “cordeiros” são com frequência caloteados.

Ao cabo, a festa repete o esquema comum de nossa economia: a alta, absurda, imoral concentração de renda. O prejuízo sempre fica para a cidade. Continuar lendo

Rumores de Festa: o sagrado e o profano na Bahia

Livro publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia. Encerra quatro estudos sobre diferentes aspectos do carnaval baiano, festas populares de Salvador e do Recôncavo, rodas de samba e a grande festa cívica baiana do Dois de Julho.
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