Olympio Serra, Ordep Serra e Roberto Mendes

O CANTO ENCANTADO

BREVE REFLEXÃO À LUZ DA MÚSICA DE ROBERTO MENDES e a propósito de sua nova criação, intitulada A FÉ, A FESTA, A DANÇA

 

Sem festa, o mundo não sobrevive: perde o alimento de sua origem, a graça da criação. Ainda que se mova no giro da rotina, ainda que se agite, não vive de verdade. Fica à beira da morte: um traste sujo de banalidade. Sim, assim é: sem festa, ele tende a desanimar-se. Perde a graça, o gosto. Se infesta de tédio. Gasta-se à toa.

Não há como negar: mundo sem festa é imundo. Só quando festejamos a vida o aviventa. E ainda que o brinquedo seja efêmero, seu efeito é duradouro. Para quem sabe que a festa virá, até a rotina tem seu gosto… Enche-se de graça: torna-se uma ciranda boa, festiva pelo avesso. Deste modo se evita a doença mortal do desencanto.

De acordo com a sabedoria negra dos nossos terreiros, o ayê, o mundo dos homens, precisa de festa. Que é da competência dos santos — dos “Encantados”, como eles também se chamam. Mas em que consiste a festa dos “Encantados”? O que eles fazem? Para que se promovem seu ritos sagrados? Os mestres do candomblé respondem: a festa se faz para que os santos venham brincar. É assim que se define a atividade mais importante deles em seu comércio com os homens: sua realização essencial, que ocorre em momentos privilegiados.

Toma-se um grande trabalho para que esse brinquedo se realize: homens e mulheres, pobres na maioria, se afadigam, despendem tempo e recursos preciosos, com dedicação. A generosidade é mãe da festa, que se enfeita de dádivas e se alimenta do esforço coletivo: exige colaboração, entrega, paciência, entusiasmo, desde os primeiros passos até o fim.

Houve tempo em que era preciso ainda mais: correr o risco de vexames, enfrentar a perseguição da polícia. Muita gente já apanhou, sofreu cadeia e humilhação, por causa do brinquedo dos santos, por amor à festa… Pois é isso que significa a palavra, de origem banto, que designa o culto afro-brasileiro do Candomblé. Ela pode aplicar-se também a música e jogo, a muitas formas de brinquedo. Como o samba, o canto e a dança que nos alimentam. Pois somos da terra onde os santos “brincam”, de modo que alegra e consola os homens.

 

Sendo rica de fé — esta é sua fortuna —, a festa nada tem de fútil. Bem ao contrário, tem a ver com o fundamental: com a essência da vida. É coisa de alta responsabilidade. Quem festeja toca na raiz do mundo e procura sentir os movimentos da Criação.

Dá-se que a Criação é toda misteriosa. Ninguém sabe como seria esse fazer divino. Entretanto, há no mundo dos homens um fazer que nosso povo imagina parecido com esse, uma atividade que guarda semelhança com a do Criador: a atividade de brincar. Na festa, os santos brincam, pois imitam e representam para os homens a presença de Deus.

Mas não estão sozinhos: a gente participa.

 

Desde logo, é indispensável a beleza: exige-se que a casa, os homens e as mulheres se façam bonitos. A música tece o caminho desta revelação. E o brinquedo criativo da festa tem mais uma linguagem privilegiada: a dança, em que o corpo é todo alma.

 

A alegria da festa vem de sua força. No entanto, ela mexe com perigos: com a graça perigosa da origem.Logo no primeiro momento, carece ter muito cuidado: há coisas que só o silêncio é capaz de dizer. Por sorte temos um meio de capturar o silêncio. É o que se chama de música.

 

No dia-a-dia, prevalece a aplicação no trabalho eficaz, na labuta que promete o ganho. Vê-se o mundo pobre, com poucos recursos para tanta gente. E quase sempre, é cada um por sua conta. A festa proclama a riqueza inesgotável do mundo, diz que ela aumenta quando se reparte. Em vez do trabalho sério, privilegia o brinquedo; assegura que brincar é a atividade mais importante de todas.

No quotidiano, o certo é poupar: “farinha pouca, meu pirão primeiro…” Já a festa reclama comunhão e gosta do derramamento gratuito; não gosta de poupança.

A normalidade exige que cada qual se mantenha senhor de si, na posse controlada de si mesmo. A festa quer o êxtase, o arrebato, a viagem das almas de umas para as outras.

No dia-a-dia, quando uma pessoa falha, diz-se que ela “dançou”. A festa garante que dançar é o maior dos sucessos, o sinal do êxito pleno, a grande realização. Pois Deus é o dançarino e o ser é sua dança.

 

A festa é uma doida de Deus.

É a razão de nosso povo.

 

Para conhecê-la — para entrar na festa de modo que ela entre em nós — é preciso atirar-se a uma aventura. Como a que Roberto Mendes propõe, lendo, criando e recriando uma música toda desafiadora: a música multicor do Recôncavo, que desafia o comodismo da lógica trivial, construindo iluminações a partir de um jogo sério, com a louca sabedoria de quem pergunta com fé: — “Quem vem lá?” — e reconhece, por fim: — “Sou eu!” — abrindo os braços para si mesmo e para todo o mundo. Música e dança em carne viva da Bahia — música de Roberto Mendes.

 

 

Rumores de Festa: o sagrado e o profano na Bahia

Livro publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia. Encerra quatro estudos sobre diferentes aspectos do carnaval baiano, festas populares de Salvador e do Recôncavo, rodas de samba e a grande festa cívica baiana do Dois de Julho.
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