BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA AUSÊNCIA

Teve lugar no dia 30 de janeiro último, no Teatro Vila Velha, um encontro de autoridades e técnicos de excelência reconhecida com um significativo segmento do público mais esclarecido de Salvador. Isso se fez com o propósito de discutir problemas da urbe, em busca de indicar “a cidade que queremos”. O foco das discussões foi a LOUOS recentemente aprovada pela  Câmara de Vereadores e sancionada pelo alcaide de forma, no mínimo discutível. O prefeito foi convidado mas não compareceu, nem mandou representante. Tampouco se fizeram presentes os edis que formam sua base de apoio na comuna, os responsáveis pela aprovação do diploma legal questionado tanto pela sociedade civil organizada quanto pelo Ministério Público.

            Ao abrir o encontro, Márcio Meireles observou, com muita pertinência, que com essa iniciativa o teatro cumpria sua função social, um papel importante que tem desde sua origem. É verdade: no mundo antigo onde surgiu para o Ocidente, o teatro se constituiu em um espaço público no qual a sociedade se mostrava a si mesma, refletia sobre seu destino e se criticava, figurando-se com as imagens do mito (como ensinava, entre outros, meu saudoso mestre Vernant). O riquíssimo desabrochar do drama grego, na Atenas clássica, aconteceu exatamente com o florescimento da democracia. Isso talvez explique porque alguns de nossos políticos nunca vão ao teatro, antes o evitam e se sentem mal nesse meio, parecem ter-lhe alergia.

Merece louvor a iniciativa do  Vila Velha e do Movimento Desocupa: nada mais legítimo que reunir cidadãos para discutir a cidade, dizer como a querem ou não querem, colocando em debate leis que podem determinar seu destino. A ausência do prefeito e de seus apoiadores é que causa espécie. Foram convidados, sim, com toda a formalidade. Não deram resposta, nem mesmo apresentaram justificativa para sua ausência. Como se nada tivessem a dizer sobre normas de sua lavra, sobre uma lei que afeta de muitos modos a vida de toda a cidade.

Discutir essa lei torna-se imperativo quando se verifica que sua votação se deu de maneira precipitada, sem consulta pública séria, sem o escrutínio técnico que se impunha, sem a justa ponderação de seus efeitos, sem qualquer avaliação de sua congruência com o interesse público. Quem editou nessas circunstâncias uma nova Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo Urbano — LOUOS  deveria explicar porque agiu assim. Se tivesse motivos respeitáveis (e publicáveis) para tanto, com certeza teria o máximo interesse em evidenciá-los; deveria mostrar, ou tentar mostrar, que tremenda urgência pudera, ou poderia, justificar tamanho atropelo no seu encaminhamento e na sua votação. Afinal, o corpo normativo gerado de inopino foi questionado por instituições de peso quanto a seu conteúdo e sua compatibilidade com as leis maiores em vigor no país.

Mas aí está: seus propositores receberam um convite para um debate público sobre o assunto e se calaram.

Como se pode entender essa atitude?

Uma inferência é inevitável: se eles estivessem convictos de que sua LOUOS tem sustentação jurídica e técnica, se estivessem certos de que ela corresponde ao anseio dos cidadãos, de que ela foi normalmente proposta e votada, o prefeito e os edis a seu serviço teriam o máximo interesse em discuti-la com o povo: teriam todos os motivos para discorrer sobre ela,  apontar-lhe os fundamentos e a pertinência, defendê-la e fazê-la aclamar.

Seu silêncio indica o contrário. Tudo indica que eles recearam o debate com urbanistas, juristas, sociólogos, engenheiros e outros técnicos presentes no teatro; não a queriam discutir com os renomados componentes da mesa ao lado dos quais teriam de sentar-se; e muito menos dialogar com o público bem informado, atento e crítico ali reunido.

Em todo o caso, seu silêncio falou alto: bradou que faltam argumentos a quem propôs e aprovou a toque de caixa a precipitada LOUOS; proclamou que não há como fazê-la passar por compatível com o interesse público e com as normas fundamentais de nosso sistema jurídico; mostrou que ela é indefensável.

Qualquer pessoa que disponha de um mínimo de informação, se for dotada de boa fé e estiver em pleno gozo de suas faculdades mentais, perceberá de imediato que ordenar o uso e a ocupação do solo urbano de uma grande metrópole como Salvador exige reflexão, análise detida, ampla discussão com técnicos de diferentes áreas e com múltiplos setores da sociedade. Ora, isso leva tempo. A análise dos parâmetros técnicos não se faz, nesse caso, da noite para o dia; mesmo especialistas gabaritados requerem um prazo razoável para efetuá-la de forma cabal, segura e responsável.

As implicações jurídicas de semelhante norma carecem também de detida ponderação. Não é coisa de gente séria encaminhar um projeto dessa natureza às carreiras; não é decente fazê-lo  de forma intempestiva, exigir-lhe aprovação imediata em período mínimo.

Outra evidência se impõe: quem aprovou a nova LOUOS em prazo exíguo, sem consulta a técnicos abalizados, sem o exame criterioso de sua fundamentação, não a apreciou de modo algum, sequer a conheceu efetivamente. Quem agiu assim, talvez a aprovasse com a mesma diligência e o mesmo grau de compreensão se tivesse recebido o texto do projeto escrito em sânscrito. Talvez nem notasse a diferença de língua e de grafia.

Não é tudo, não cessa por aí o disparate. Essa lei regulamenta uma outra, de mais amplo alcance e de estrutura ainda mais complexa, no que tange a sua base técnica. Lei que regulamenta outra deve seguir-lhe o desenho estrutural, cuja modificação se acha condicionada a prescrições incorporadas na norma anterior. Violentando tais prescrições, a modificação passa além do limite lógico, deforma em vez de regulamentar.

Os apressados edis que aprovaram a nova LOUOS não mostraram ter real consciência do significado do PDDU. E o prefeito João Henrique Barradas Carneiro demonstrou de forma histriônica não ter sequer a sombra dessa consciência. Demonstrou-o com plena clareza quando falou em “PDDU da Copa”. Um plano diretor do desenvolvimento urbano é coisa séria, deve ter caráter sistêmico e amplo alcance. Não pode cingir-se a definições pontuais, nem ter por horizonte um evento efêmero. Em princípio, um plano dessa natureza orienta o crescimento da urbe (levando em conta suas conexões com toda a região metropolitana) à escala de um longo prazo: várias décadas, usualmente até meio século. Falar em “PDDU da Copa” é uma simples e grossa asneira, um coice no bom senso, uma contribuição pouco honrosa de nosso alcaide ao anedotário nacional, ao interminável FEBEAPÁ que a Bahia revive tristemente.

Leis como o PDDU ou a LOUOS, que afetam a vida de milhões de pessoas e produzem efeitos duradouros sobre gerações, devem, por isso mesmo, ser amplamente discutidas com a sociedade e debatidas por longo tempo na Câmara dos edis, municiada por análises técnicas profundas, de modo que sua sanção ou suas modificações decorram de votos conscientes e responsáveis. As consultas públicas que a legislação vigente preconiza devem ser conduzidas com a máxima seriedade. Isso envolve divulgar-lhes amplamente a convocação, dar aos interessados plena ciência do texto do projeto em tempo hábil, proceder a explanações de peritos que “traduzam” os dados de ordem técnica; envolve também, claro está, a injunção de registrar as contribuições dos segmentos consultados e levá-las em conta. Quando nada disso se faz, o que acontece não é verdadeira consulta pública: reduz-se a farsa de um tipo grotesco, com arreganhos de manipulação fascista.

Sucede que neste caso o prefeito não seguiu o procedimento correto, lhano e democrático. Preferiu esconder do povo o que propunha — e esconder-se em seguida. Já a escolha solerte do momento para a votação (recesso, época de feriados) revela a intenção de embair, de evitar questionamentos.

Como todos sabem, coisa que se faz às escondidas e de modo precipitado não costuma ser decente. Triste ligeireza, clara leviandade: sinal de má fé, de intenções escusas.

Foi esse torvo silêncio, sobrecarregado por voluntária surdez ao clamor público, que os defensores taciturnos da LOUOS de origem obscura, proposta e votada de afogadilho, voltaram a ostentar na noite do dia 30 de janeiro último. É o silêncio que desejam impor à cidade inteira.

Não terão nisso o menor êxito. A nova LOUOS será discutida, sim. Técnicos de alto gabarito vão examiná-la, ponto por ponto. Instituições de peso como o CREA e o IAB vão analisá-la, estudar-lhe os pressupostos, as bases, os parâmetros, os valores urbanísticos nela incorporados; vão submeter a cuidadosa apreciação as alterações que ela produz no PDDU, de modo a desnudar a proposta de cidade que aí se delineia. Juristas e cientistas sociais abordarão o texto da norma que se forjou, empenhando-se em esclarecer as intenções ocultas no seu emaranhado bisonho.

Muitas dessas raposices já se fizeram patentes, com uma nitidez escandalosa. Não é difícil advertir e indicar, até mapeando, os interesses particulares que a lei forjada favorece, em detrimento do patrimônio da cidade.

Mas isso é apenas o começo. O movimento social tem a promessa da OAB de que submeterá a LOUOS intempestiva a exame por seus peritos, submetendo a rigoroso crivo sua constitucionalidade. O Ministério Público já o faz.

Torna-se necessário, por certo, um estudo apurado do texto em questão, a ser analisado desde diferentes ângulos; mas  não é preciso esperar sua conclusão para detectar aí grossas aberrações. Algumas das consequências mais graves da nova (e já caduca) LOUOS transparecem à primeira leitura.

Foi certamente por ter consciência disso que o prefeito e seus seguidores não quiseram ir ao teatro (“lugar onde se vê”, segundo ensina o étimo grego). O muito que já está claro na sua triste criação justifica plenamente o slogan do movimento DESOCUPA, que o prefeito e seus prepostos têm procurado descaracterizar. A maneira como o fazem é curiosa: dizem que o movimento é político.

Eis uma coisa que me intriga: alguns profissionais da política têm o hábito de usar esse termo — com o qual também se identificam — de modo pejorativo, negativo. Incidem nessa prática quando o empregam para desqualificar iniciativas, atitudes e manifestações contrárias a seus intentos. Em sua boca, o termo “político”  assume, então, o sentido de espúrio, malévolo, suspeito: denota coisa que não merece crédito.

É evidente que esse uso negativo do termo reflete a auto-imagem de quem assim o emprega. Entre os profissionais da política há pessoas dignas que devem sentir-se muito incomodadas com o estigma colado dessa forma ao rótulo  de sua identidade por  seus colegas menos éticos. Pois que estes não se respeitem, vá lá; mas que generalizem sua auto-imagem de modo a avacalhar toda a classe, já é demais.

De resto, constitui um erro crasso limitar o alcance semântico da palavra político ao âmbito das iniciativas de quem atua em partidos, de quem se dedica como profissional às disputas eleitorais, à governança, ao exercício do poder na esfera pública, quer na situação quer na oposição. Cabe o nome de política a toda a atividade relacionada com a cidadania, com o interesse coletivo, com o domínio público, com a afirmação de direitos. O DESOCUPA e o VOZES DE SALVADOR são movimentos políticos, sim; mas não partidários, pois deliberadamente se mantêm fora desse âmbito. Não se ligam a nenhuma organização dessa natureza, a nenhuma se subordinam. Reunem cidadãos dispostos a lutar pela cidade que lhes está sendo roubada. É isso. E basta.

Que a sociedade civil se organize e pugne por seus direitos é inteiramente normal no mundo civilizado. O prefeito e seus seguidores não querem crer que existe, aqui, demanda clara de democracia participativa. Afinal, fazem de tudo para esconjurá-la. Correspondem a um tipo de ator político que resiste à participação popular na condução da coisa pública, ao tempo em que sua prática deforma e vicia, também, o estatuto da representação, a democracia representativa. Os subpolíticos desse jaez acreditam que a votação por força da qual assumiram seus cargos equivale a um cheque em branco e lhes confere uma indulgência plenária: julgam que os votos obtidos (seja lá como for)  legitimam a priori todos os seus atos, de modo que eles nada mais precisam explicar, não têm que dar satisfações  ao povo, a pessoa alguma. Um energúmeno desse quilate não demora a colocar-se acima da lei, fazer-se de soberano ungido.

Mas dá-se que votos não legitimam tudo, nem imunizam contra a justa reclamação da sociedade, quando o interesse público é violado. Se um gestor não presta contas de maneira correta, se desacata as leis maiores, se descura suas obrigações, se coloca em risco o patrimônio público e compromete o futuro da sociedade, agindo de forma irresponsável, caprichosa, arbitrária, indigna, já não pode dizer-se legítimo.

Os infelizes eleitores do prefeito João Henrique e de seus cúmplices não se dão conta, por desinformados, da desgraça que a nova LOUOS  representa para eles; mas caso ela prevaleça vão sofrer-lhe amargamente as consequências.

Uma das emendas ao PDDU espuriamente incorporadas à nova LOUOS descaracterizou, mutilou e praticamente aniquilou o Conselho da Cidade — indispensável Conselho que o prefeito prometeu mas não quis instalar, fazendo jus ao nefando título de João sem Palavra; assim desobedeceu à lei federal conhecida como Estatuto da Cidade e ao que o próprio texto do PDDU preconiza. Mais grave ainda, com a absurda emenda mutiladora a norma constitucional que estabelece o princípio da democracia participativa foi claramente desacatada.

Pela nova LOUOS, o Conselho deixou de de ser paritário: sofreu violento expurgo de  muitos membros da sociedade civil organizada e perdeu, também, seu caráter deliberativo.

Essa mudança de Conselho da cidadania para clube de vacas de presepe tem razões muito claras: tolher a participação popular na gestão, inviabilizar o controle social. O prefeito quer decidir tudo sozinho, sem interferência dos cidadãos, fazendo só o que for conveniente para si e para seus patrocinadores; tampouco admite ser fiscalizado. Se pudesse, extinguiria também o Tribunal de Contas do Município.

É por tudo isso que ele some, se esconde, desaparece. Qualquer pretexto lhe serve para fugir quando vêm a público suas medidas tresloucadas, a exemplo da supressão do parque do Vale Encantado (a última reserva significativa de Mata Atlântica em Salvador, sacrificada à ganância imobiliária); ou quando se comenta a leviandade do aumento escandaloso do gabarito de edificações em áreas de praia, a sistemática privatização de espaços públicos e outros desmandos cometidos na desvairada LOUOS de encomenda, para gáudio de empreiteiros inescrupulosos. Na verdade, o bisonho prefeito parece ter-se especializado em ausência, mutismo e esconderijos.  Está ausente como administrador, surdo-mudo em matéria de interesse público, oculto  à sombra de interesses que não declara.  Some também quando a honra e o dever mais exigem dos dirigentes, ou seja, em situações de crise como a que ora vivemos. A fuga revela o poltrão.

MANIFESTO CONTRA A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E O RACISMO, EM DEFESA DO CANDOMBLÉ E DOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS EM GERAL

Os ritos afro-brasileiros formam um espetro rico e matizado. Não obstante a variedade, é muito o que eles têm em comum, por causa de ligações de origem e também por conta de aproximações feitas neste país. A diáspora negra nos trouxe as riquezas religiosas de diferentes povos da África, de que somos herdeiros. Não há dúvida de que assim a cultura nacional se enriqueceu muito. Hoje o próprio Estado brasileiro reconhece o valor  desse legado: cinco terreiros de candomblé baianos foram tombados como patrimônio histórico do país; quase uma dezena tem o título excepcional de patrimônio da Bahia. Outros, muitos,  mantêm convênios com órgãos de governo (da União, do estado e do município), para desenvolver importantes trabalhos de promoção social que resultam na melhoria da qualidade de vida do povo. As associações que representam terreiros no plano civil são geralmente reconhecidas como de utilidade pública. Uma Ialorixá e um Babalaô receberam títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia. Delegações de sacerdotes do candomblé foram recebidas com todas as honras no Congresso Nacional e na Corte Suprema. Homenagens a essas autoridades religosas têm acontecido em diversas Assembléias. Para dar um só exemplo, um terreiro baiano já foi visitado por um Presidente da República, por Governadores e parlamentares, por um escritor agraciado com o prêmio Nobel e por autoridades religiosas cristãs, a saber, um representante do Vaticano e um grupo de pastores evangélicos noruegueses. É normal que pessoas cultas, civilizadas, educadas, demonstrem respeito e consideração pelos cultos afro-brasileiros. Só a ignorância, o racismo e o fanatismo explicam a atitude de quem os desrespeita e ataca com gratuita hostilidade. 

No candomblé (a forma de culto afro-brasileiro que prevalece na Bahia), muitos negros têm encontrado um caminho de afirmação, um fundamento de auto-estima que os ajuda a superar a discriminação racial. A idéia da ascendência é retrabalhada nesse contexto de uma forma enriquecedora: quem se inicia em um terreiro torna-se, em termos espirituais, descendente dos seus fundadores. Por isso, os iniciados passam a considerar-se angolas, congos, jejes, ou nagôs, por exemplo. Assumem e vivenciam (seja qual for sua procedência) identidades afro-brasileiras. As origens negras são valorizadas, veneradas. Mas não existe barreira étnica que proíba a quem quer que seja esta identificação. Nos terreiros também se encontram brasileiros e até estrangeiros brancos, convivendo harmonicamente com pessoas negras e negro-mestiças. No culto do candomblé não se admite preconceito, não se condena o próximo, não se faz pouco das crenças alheias, não se discrimina. Por isso mesmo o candomblé é respeitado e tido em alta conta por pessoas das mais diversas origens, de diferentes crenças. 

É impossível pensar o Brasil de forma positiva sem uma valorização das suas origens negras e caboclas. Somos um país latino, sim, mas negro e caboclo também. Não há dúvida de que esquecer nossa ligação com o continente negro equivale a esquecer, ignorar o Brasil.

Aqueles que condenam as religiões de matriz africana e lhes movem uma guerra sem quartel, à base de calúnias e agressões de todo o tipo, apenas difundem um triste preconceito. Há mesmo igrejas em busca de crescer parasitando os ritos que assim perseguem. Mas nisso destoam dos verdadeiros evangélicos. 

Por muito tempo, neste país, alimentamos o furor de um racismo hipócrita fazendo de conta que isso não existia por aqui, fingindo que não temos “problema racial”. Hoje, poucos apregoam a “democracia racial brasileira”. Mas agora nos defrontamos com um triste casamento de racismo com intolerância religiosa. Ora, convém lembrar que racismo é crime e intolerância religiosa também. Representam um desacato a nossas leis maiores, a começar pela própria Constituição Brasileira. 

            Por ironia, os atingidos por esses crimes são praticantes de ritos que muito contribuíram para um autêntico avanço democrático no Brasil, difundindo aqui um generoso espírito de tolerância. Como religiões não dogmáticas, os cultos afro-brasileiros não reivindicam qualquer monopólio da verdade. Consagraram, assim, uma mentalidade aberta, que admite e acolhe a diferença. Isto é uma autêntica conquista civilizatória, que hoje se vê ameaçada pela agressão do fanatismo. 

O culto dos orixás enriqueceu o Brasil com a beleza de seus ritos e símbolos, inspirando inúmeros artistas. (Lembremos Carybé, Mario Cravo, Agnaldo Santos, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Tati Moreno, Capinan, Roberto Mendes, Bel Borba… A lista seria interminável). Seus adversários lhe opõem o vandalismo, a injúria e a calúnia. Enquanto a ética dos terreiros consagra a poesia do corpo, a dignidade das mulheres, os encantos do amor, a alegria das festas, o esplendor da natureza, seus detratores cultivam tristes preconceitos, semeiam racismo e sexismo.               

É momento de cobrar com vigor o resgate da imensa dívida do Brasil para com os afro-descendentes. Neste contexto, torna-se imperativo reconhecer que é imoral e ilegal  o ataque aos adeptos dos cultos afro-brasileiros e a sua religião. Cidadãos dignos, seja qual for sua crença, não podem admitir que a liberdade religiosa seja violada, que  os adeptos do candomblé sejam desrespeitados, ofendidos, injuriados, maltratados, perseguidos.

Os terreiros não são apenas templos religiosos aonde uma parte significativa da população vai em busca de remédio para suas aflições. São ainda agências culturais, centros de educação. Têm sido um espaço onde pessoas pobres podem desfrutar de um ensinamento voltado para sua valorização e efetiva integração comunitária. 

Não são apenas mitos, ritos, orações, uma complexa liturgia que se aprende nos terreiros; não só as fórmulas de um código religioso, os padrões de uma música e de uma dança magníficas, os segredos místicos e terapêuticos de uma notável etnobotânica, os procedimentos de uma culinária sagrada, o jogo dos símbolos que inscrevem valores no corpo através de sutis paramentos; não só uma estética vivificadora, embebida de amor pela riqueza da criação; nem só um cálido apreço pela vida. Nos terreiros, um homem negro, uma mulher negra, reencontra uma história que lhe foi tirada, reconquista seus ancestrais, reinventa-se o tempo perdido, vive tradições que o referenciam; qualquer homem, qualquer mulher, assim acolhido no seio dos antepassados africanos (e caboclos), aprende uma fraternidade que ultrapassa todos os limites de cor e classe; aprende a amar sua origem e nela, em seu horizonte, sentir o divino. Ganha respeito por si mesmo e pelos outros.

O ataque aos cultos afro-brasileiros compromete estas conquistas. Reativa o racismo. Traz consigo uma ameaça de desagregação, de incremento da violência. Mas não atinge apenas suas vítimas diretas. O progresso da intolerância é um surto de barbárie que pode destruir um país.

AGONIA DO CARNAVAL BAIANO

(Foto: capa da edicão de 11.03.2011 do Jornal da Metrópole)

Já se tornou uma verdade nua e crua, incontornável, um fato cuja constatação se impõe até aos mais obtusos, a profunda crise do carnaval baiano — crise que agora toma jeito de agonia violenta, suja, com espasmos brutais. Não há como confundir com vitalidade esses estertores do gigante drogado.  O buraco é mais embaixo e não dá para esconder.

Para começo de conversa, o carnaval de Salvador já não é de Salvador. De acordo com as estatísticas, apenas 22% dos soteropolitanos participam dele. Mas de modo desigual, é preciso que se diga. Pois muitos participam da grande festa sem festejar, ou seja, trabalhando em condições mais que precárias: uns, na condição servil de “cordeiros”; outros a espremerem-se pelas ruas, vendendo cerveja e petiscos miúdos, enfeites etc.; ou ainda catando latas dia e noite. A miséria dos “cordeiros” é explorada de forma obscena e a triste instituição do bloco de cordas se mantém ano após ano, com o beneplácito das nossas autoridades, decerto empenhadas em honrar as tradições escravistas da Bahia. Os amos do bloco até alegam que com isso oferecem uma oportunidade de ganho a pessoas necessitadas. É verdade que elas o são: a espantosa pobreza de Salvador, fruto de desgoverno e insensibilidade social, recruta facilmente homens e mulheres para esse tipo de trabalho. É ela também que leva famílias inteiras a dormir na rua durante a bela festa, sacrificando-se para obter um pequeno aumento de suas rendas com um inseguro comércio. Para isto fazem vigília, no tumulto carnavalesco; dormem pelas manhãs na promiscuidade e na sujeira, nas calçadas ou nos escassos gramados, entre bêbados e lixo.  Ou em barraquinhas improvisadas, que tomam calçadas e bloqueiam a entrada de inúmeros prédios na Barra, por exemplo.

Não vamos negar que o carnaval baiano distribui renda. Ele o faz de diversas formas. Ladrões e narcotraficantes também têm sua chance. Mas o grande lucro fica com poucos.

Claro, há o turismo que enche os hotéis; há os promoters, donos de blocos e de camarotes, as cervejarias e seus propagandistas. Os trabalhadores qualificados do carnaval têm seu ganho, muito suado… quando não levam calote, como acontece frequentemente com músicos contratados pelo município, cujas queixas ecoam por meses na imprensa. Também os “cordeiros” são com frequência caloteados.

Ao cabo, a festa repete o esquema comum de nossa economia: a alta, absurda, imoral concentração de renda. O prejuízo sempre fica para a cidade. Continuar lendo

I SEMINÁRIO GEY ESPINHEIRA

No começo deste ano de 2010, propus ao Diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia que fosse criado um Seminário anual com o nome do nosso falecido colega Professor Gey Espinheira e voltado para a discussão de problemas urbanos, em especial de Salvador e Região Metropolitana.  Contactei também o Centro Acadêmico de Ciências Sociais (caciso) da FFCH/UFBA, que imediatamente aderiu à proposta. Mas apenas no segundo semestre deste ano foi possível começar a pôr em prática o planejado: o Primeiro Seminário Gey Espinheira teve lugar em dezembro de 2010, no Auditório do Centro de Recursos Humanos da UFBA, no campus de São Lázaro.

Nesta primeira edição, o Seminário compreendeu apenas duas sessões matutinas, em dias consecutivos, reunindo urbanistas e sociólogos. Foi coordenado pela Dra. Urpi Uriarte, minha colega do Departamento de Antropologia (especializada em Antropologia Urbana) e por um representante do CACISO, o estudante Gustavo  Costa. Registrou-se como atividade de Extensão do Departamento de Antropologia da FFCH/UFBA.

Da Mesa de Abertura, além dos organizadores, participaram o Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil – Seção Bahia, Daniel Colina; a Professora Iracema Guimarães, representando o CRH / UFBA; o Professor Luiz Lourenço, Chefe do Departamento de Sociologia da FFCH/UFBA; e o Professor Rui Espinheira, irmão de Gey, representando sua família no evento. Seguiram-se duas notáveis palestras dos arquitetos Ana Fernandes e Paulo Ormindo Azevedo, discutindo a situação do planejamento urbano em geral e particularmente em Salvador, com um animado debate.  Na manhã seguinte compô-se uma mesa redonda em que o tema “Como Anda Salvador?” foi abordado pelos professores Inaiá Carvalho (CRH), Ângela Gordilho (FAU) e Gilberto Corso (FAU). Depois de suas palestras deu-se uma rica discussão do assunto com o público.

Creio que o evento teve sucesso. Mas ele foi apenas uma experiência piloto. No próximo ano, o Seminário Gey Espinheira terá maior amplitude. Meu desejo é que ele se torne um fórum regular de discussão universitária sobre a problemática urbana e metropolitana de Salvador, um ponto de encontro de especialistas que em diversas unidades da UFBA lidam com esta problemática, mas ao mesmo tempo um espaço aberto a pesquisadores de outras instituições e a lideranças de movimentos sociais aqui envolidos na luta pelo direito à cidade.  Já neste ano, na experiência piloto, marcaram presença membros do Movimento Vozes de Salvador e do Fórum “A Cidade também é Nossa”.

Limitamo-nos neste primeiro momento a promover uma interlocução entre professores e alunos da FFCH e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFBA.  Mas a idéia é avançar, trazer ao debate pessoas das mais diversas áreas que se interessam pelo assunto do Seminário.  Creio que devemos isso à memória de Gey, um grande sociólogo e também um cidadão exemplar, engajado na luta contra a desigualdade e pela melhoria da qualidade de vida do povo de Salvador, dos baianos e brasileiros em geral.

No primeiro Seminário que teve seu nome, os professores, técnicos e estudiosos presentes, assim como seu público, de modo unânime reconheceram que Gey tinha muito motivo de preocupar-se com a situação de sua cidade: Salvador está entrando em colapso. Este processo precisa ser detido. Com a obra que nos deixou e com a inspiração que nos dá, Gey Espinheira ainda se acha na vanguarda dos defensores de Salvador.