FUNDAMENTOS DA CULTURA BRASILEIRA

TENTATIVA DE REFLEXÃO SOBRE OS INTRIGANTES FUNDAMENTOS DA CULTURA BRASILEIRA – OU (TALVEZ) ENSAIO DE ESCAVAÇÃO EM BUSCA DOS FUNDAMENTOS DE UM DISCURSO SOBRE CULTURA BRASILEIRA

Texto da palestra ministrada por Ordep Serra em uma conferência promovida pela Pró-Reitoria de Extensão da UFBa em 2005, no Instituto Goethe (ICBA, Salvador).

Trecho:

“[…] O estudo da formação social brasileira compreende a abordagem de uma consciência nacional que aqui se constituiu através da história. A gênese dessa consciência envolve um processo político. Ela não pode ser entendida como consciência pura, gerada espontaneamente enquanto reflexo de uma história compartilhada, ou fruto “autóctone” de um terreno comum de tradições, efeito de um inexorável pertencimento; mesmo porque a unidade postulada é, em grande medida, a de um projeto que também decorre da sua afirmação. E o pertencimento é politicamente construído, por menos que tal construção se dê a perceber.

A “consciência nacional” exprime uma vontade política não isenta de contradições. Ela incorpora desejos, imagens oriundas do desejo, valores e interesses nem sempre claros, muitas vezes em conflito. Nutre-se, também, de mitos, de uma produção ideológica que a mitifica.

Essa consciência tem, pois, uma dimensão que lhe escapa. Não é um puro ato de razão a dar-se conta de uma realidade sócio-cultural existente “em si”, antes que ela a ponha “para si”. A história comum-exclusiva em que ela busca firmar-se é também sua criação, formada numa leitura teleológica retrospectiva, no estilo da profecia ex post facto – coisa que, não raro, essa incerta consciência logra esconder de si mesma. Ela tem, pois, seu inconsciente, capaz de assumir-lhe o governo em poderosos delírios… Como os que informam a ideologia nacionalista.

Tanto no mundo moderno como no pós-moderno (que, pace Bell, pace Watkins e Kramnick, ainda não ultrapassou de todo a “era das ideologias”), a falsa consciência do nacionalismo tem de ser levada em conta por quem busca o significado de uma consciência nacional.

Não digo que esta consciência nacional seja uma pura ilusão; não a estimo redutível ao nacionalismo que a distorce. Reconheço que ela tem realidade política (e também moral). Digo só que ela é passível de engano, de obscurecimento: pode incorporar ilusão e má fé, de um modo muito deformador. Por outro lado, reconheço, ela também pode ter sentido positivo. Mas para que este sentido positivo se afirme é preciso um trabalho crítico, o qual implica um esconjuro sócio-antropológico da reificação da cultura, isto é, do ato de falsa consciência que a naturaliza para convertê-la em fonte misteriosa de uma identidade cristalizada, capaz de instaurar-se – sugerem-no as mitologias do gênero – através de uma espécie de estampagem.

(A propósito, é fácil ver porque, em todo o mundo, ideólogos da direita tiveram êxito em transformar as idéias de cultura e “identidade cultural” em um sucedâneo da desmoralizada noção de raça – praticamente com os mesmos efeitos discriminatórios). […]”

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